Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

INVÉS


Fêmea indecorosa, invés.
Deflorada por presentes.
Soluçante de satisfação.
Pendo. Ótimo.

autorretrato aos 16, mesma idade em que, ainda virgem, escrevi a primeira versão do poema

autorretrato aos 16

Porque antes ele venha, arrase o pasto e parta, que um cão de guarda mate à cerca meu orgasmo e meu amante. E o porvir que se insinuava jamais atravesse os portões do castelo. Prefiro juntar os cacos a ser obra de arte casta.

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MUNDOS DE VIDA


entardecer no Dragão do Mar

Acabamos de finalizar, Yuri Leonardo e eu, uma reportagem que, a essa hora da madrugada, dorme entre outras muitas, aguardando ser lida por quem a julgará. Enquanto espero o resultado e os desdobramentos dessa avaliação, duas certezas me povoam: a de que fizemos um trabalho responsável e sensível, e a de que estou temporariamente oca.

Parir uma história desvela mais do nosso íntimo do que a ingenuidade pode supor. A maneira como nos lançamos aos fatos, a reverberação das declarações em nossos sonhos e o que nos motiva a ir ao limite da exaustão. Tudo isso se mostra uma nova relação entre as coisas e nós mesmos que vai além da esfera profissional.

Eu não escrevo porque é minha profissão. Por mais utópico e tolo que possa parecer dizer isso assim, de chofre. Escrevo porque foi essa a forma que encontrei de dar sentido ao mundo. As palavras completam espaços vazios dentro de mim, embalam meus dias, redefinem meus planos.

Quando converso com alguém e desse diálogo absorvo um pouco do outro, volto para casa com a sensação de que vale a pena estar viva. Porque a alteridade não deve ser temida, ela precisa, antes de tudo, ser disseminada. Os passageiros, os rostos não familiares, o que escondem? O que têm a somar?

As palavras me libertam. Usar-se delas na busca pelas verdades me espalha pela rua, colore meus ideais. De mais a mais, se não nos colocamos inteiros em nossos trabalhos, deixamos de ser nós mesmos por intermináveis horas cada dia. 6, 8, 10 horas diárias em que anulamos nosso tesão por um depósito bancário.

Não. Esta cidade nos pertence e espera de nós a juventude imperiosa dos destemidos e dos incansáveis. Tenho uma dívida com minha pouca idade: ser de uma excentricidade intransigente. Inventar moda, lavar a burra, caçar problema. Espero pagar o saldo bem devagar, aproveitando cada parcela de loucura, mastigando voluptuosamente cada desacerto.

Venha mais do mundo. Hoje não quero descer.

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FIO DA NAVALHA


não pode vacilar.

Exposição da Tarsila do Amaral na Fundación Caixa Galicia

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‘DEIXE-ME IR, PRECISO ANDAR…’


No mundo, existem dois tipos de viajantes.
Aqueles que, antes de partir, olham o mapa
E aqueles que, na iminência do primeiro passo,
Olham-se no espelho.

Os que olham no mapa estão partindo, os que se olham no espelho estão indo pra casa.

“Don’t look back, Saime. On train platforms we look back, that image remains as a promise”

Touch of Spice

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GUARDANAPO ESQUECIDO DENTRO DUM BORGES


“Como todos los hombres de Babilonia, he sido procónsul; como todos, esclavo; también he conocido la omnipotencia, el opribio, las cárceles”

La Lotería en Babilonia, Borges

Trem para Florença

Trem para Florença

Eu lembro que saí de casa fugida de tudo o que não fosse eu – tentativa crua de perscrutar, adivinhar de mim. Longe das varandas onde (me) consolo e me mostro. Sem uma rede, Santa Bárbara, em que esticar os ossinhos depois do almoço! E o mais: longe do mar. Nesse vazio de ondas, eu fazendo oferendas à chuva e desfilando vestidos coloridos por debaixo do casaco cinza. Mas vim. Porque queria provar-me o gosto verdadeiro e porque desejava caminhar.

De início, o hábito me fazia sentir culpa por essa fuga, como se eu fosse menor por necessitar da estrada. Talvez o orgulho infantil me fizesse desejar ser independente de tudo, até do desejo de independência. Então eu me diminuía por sentir tanta inquietude, por estar sempre envolta de tantos desejos.

Depois desta última viagem de trem pela Itália, é com mais leveza que admito que penso melhor em movimento, por isso se fez necessário vir até aqui e chorar por todo o inverno, pra perceber que a melhor primavera é a que eu carrego dentro. Agora que os dias são quentes, eu vejo um ciclo se fechar e não consigo imaginar como poderia ter sido melhor.

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O DESEJO À IDENTIDADE


Bernard Stiegler

Tudo começou com Bauman. As frases do polonês ecoando na minha personalidade [?], parecia que aquele europeu que jamais me vira na vida, estava falando de mim, descaradamente. Zygmunt fala na necessidade de fazer parte de uma comunidade, ainda que ela tenha pressupostos não-acordados que devem ser aceitos como naturais, porque a segurança produzida pela proteção correspondente a integrar uma coletividade irmanada. E eu fico com meus botões, lembrando as quantas vezes quis integrar coletivos, a fim de legitimar meus passos, sentir-me segura no mundo que é grande demais.

O sociólogo fala também em indivíduos fragilizados. Cercados de uma frustração inerente à situação de terem exaltada a individualidade sem que saibam o que fazer dela. Tudo porque nem todos os homens têm condições sociais de serem indivíduos, porque, enquanto parte integrantes de uma sociedade, não possuem os direitos necessários à independência. Como se a contemporaneidade exigisse certo poder aquisitivo mínimo para que sejamos indivíduos integrais. Por esse motivo, homens e mulheres sentem tanta insegurança quanto à própria identidade.

#fezsentidodentrodemim

Ontem peguei para ler o Le Monde DIplomatique de janeiro/2010 e me deparei com O Desejo Asfixiado, um artigo do filósofo e escritor Bernard Stiegler que volta à discussão das indústrias culturais. Eu tendo a entortar o nariz para tudo aquilo que simplifica os mecanismos sociais de manutenção do status quo em massificação dos indivíduos. Acredito que a discussão seja mais complexa do que isso e parte, justamente, do contrário de homogeneidade: a ilusão da identidade. Apenas falar em massificação não nos faz refletir de vera sobre nossa condição pós-moderna – ou como Stiegler prefere chamar: hiperindustrial.*

No entanto, como quem não quer nada, lá pelo meio do texto, Bernard, o safado, solta a seguinte bomba:

“Não posso dizer ‘eu’ porque ‘eu’ define meu próprio tempo”

#pareideler

Claro que essa idéia é até um pouco determinista se olhando por um lado. Mas eu nunca tinha pensado nela como pensei quando li essas palavras. Ele vinha falando em Miséria Psicológica de Massa e em Economia Libidinal – ou seja, nas necessidades de consumo forjadas pelo marketing. Quando li esta frase, percebi o seguinte: as necessidades são criadas não pelo marketing – que se exploda o marketing. Elas são criadas pela necessidade pessoal em possuir uma identidade, em comprar uma se preciso for. O consumo libidinoso é quando o sujeito compra a própria personalidade e pede para empacotar para presente.

Fiquei pensando nos meus 100 gigas de música, nas minhas pilhas de livros, nas minhas roupas confortáveis e de tecidos leves… E como, muitas vezes, uso deles em auto descrições: sou Janaína, tenho 20 e poucos anos, estudo jornalismo e gosto dos meus familiares, de chocolate, de sambas antigos e de romances fantásticos. O que eu gosto faz de mim quem sou. Eu normalmente gosto do que consumo. O que consumo faz de mim quem sou.

#issoficoumeiobobo

[mas é o que dá postar os medos da gente na grande rede mundial]

* Bernard Stiegler chama a sociedade em que vivemos de hiperindustrial fazendo referência à hindústria cultural de Adorno e Horckheimer. Para Stiegler, essa indústria exerce papel fundamental na estrutura social do status quo.

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.