Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

SÓ DESLIZES SALVA!


Pezinho da Baiana Baia - Foto do seu Aderbal

Pezinho da Baiana – Foto do seu Aderbal

5 e meia da manhã, o teclado mais madrugueiro de Fortaleza troando nos ouvidos zunidos da noite sem precisão de fim. Uma mulher vem entre as mesas como quem perdeu o controle do carro e saiu batendo em todos os cones do meio do caminho. Senta entre nós e desembesta num conversê, Santa Bárbara, que não tinha nem ponto nem vírgula. O quinhão que me lembro…:

– Eu sou o Dourado!

Eu mando é se fuder! Eu sou o Dourado, entendeu? E agora eu vou pregar pra vocês! Vamos nos lembrar de Deus, porque o demônio quer me derrotar! Às vezes, uns homens me chamam pra fazer programa, mas eu sou irmã, entendeu? Eu mando é se fuder!”

– Entendi, Odete. Entendi. Ô, Zezim, toca Deslizes, meu velho!

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COUSAS DE MONSENHOR TABOSA


Vovó voltou à terra natal dia desses. Retornou à Fortaleza cheia de lembranças na bagagem. Neste sábado ventoso, ao som de La Cumparsita, ela reluzia a criança esquecida nos olhos, recordando nomes adormecidos há mais de meio século.

– Meus pés eram cheios de calo. O sapato era pequeno e tinha que durar. Uma vaca abortou, num sabe? E, neste tempo, eu era interna das freiras. Aí, papai mandou tratar o couro e fazer uma bolsa e umas sandálias. Ficou assim como aquelas peles de onça, num sabe? Amarelim com umas rajas pretas. Ô, era tão bunitim!

Mão saiu do queixo pra gesticular as rajas, depois voltou pro dono, mirando a varanda enevoada.

– E tinha pele de onça pra vender, vó?

– Tinha! Nas feiras, num sabe? Neste tempo, matavam a onça pra vender o couro. Era caro. Minhas alpercatas eram de cabrito. Onça era caro…

Pezinho acarinhando o chão ao compasso do tango.

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O RETRATO DO DIA


Una película de Almodóvar

“- Olha, ali um restaurante. Quanto carro. Sinal que é boa a comida.

– Mais uma horinha e chegamos em casa.

– Você com essa eterna mania de não parar.

– Tá bem.

– Ih, tanta gente. Apresse o garçom. Tô morrendo de fome.

– Ei, garçom. Nós queremos isso e aquilo. Bem rapidinho, por favor.

– Veja lá. Aquele garçom entrou depois de nós. E logo foi atendido.

– Paciência, meu bem. Mais um pouquinho.

– De novo. Ali, esse pessoal chegou mais tarde. E já tão servidos. Você não sabe nem cobrar do garçom.

– Ah, é? Quer pressa? Olha aqui, seu garçom de merda. Traz já a comida ou…

– Ih, que vergonha. Você é um grosso, não tem educação. Só dá espetáculo.

– Amor, fiz isso por você. Se não me…

– Sempre sou humilhada em público. Foi a última vez.

– Mas, querida…

– Nunca mais entro num restaurante com você. Nunca mais, ouviu bem?

– …

– E não sou tua querida!”


[Duzendos Ladrões, Dalton Trevisan]

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FABULOUS YELLOW ROMAN CANDLES


Jack Kerouac

Jack Kerouac

“But then they danced down the streets like dingledodies, and I shambled after as I’ve been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centrelight pop and everybody goes ‘Awww!’”

*

On the Road, Jack Kerouac

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LUGAR DE REPÓRTER É NO OLHO DA RUA


Descobri Eliane Brum num sebo do Centro. A repórter gaúcha é uma das jornalistas mais premiada do país, além de ser a menina dos olhos da revista Época, mas eu nunca tinha sequer ouvido falar dela.

Enfileirada com outros tantos livros, lá estava na forma de um volume pesado e grande: O Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real. Entortei o nariz para o símbolo da Época estampado logo na primeira página, mas folheei o calhamaço, afinal era um livro de reportagens de uma mulher. Logo na contracapa já ganhei o motivo que me faltava para levar as matérias para casa: 40% de desconto.

São 422 páginas com letra grande e páginas espessas.

Reúnem 10 reportagens com as respectivas fotos e uma espécie de making of escrito pela própria jornalista. É nesses anexos que ela comenta o processo de apuração, mas também os desdobramentos de cada uma das histórias que contou.

A leitura complementar colore o texto publicado nos periódicos e é uma delícia para quem é da mesma profissão porque, além do texto fluido característico da autora, carrega uma sinceridade preciosa ao abordar questionamentos tão fortes da profissão.

Para mim é muito bacana ler as impressões dela porque são 20 anos de redação nas costas, então todos os clichês do ofício estão lá, apenas muito mais amadurecidos. Fica evidente que o repórter carrega os dilemas do jornalismo enquanto dure a carreira.

Eliane sozinha me fez reavaliar meu distanciamento dos veículos jornalísticos mais difundidos do país. Muitas vezes a gente já tem uma imagem tão cristalizada do todo, que acaba perdendo os bocados que se salvam do pacote.

Dia desses encontrei O Olho da Rua em versão digital aqui. Longe de me arrepender de comprá-lo, fiquei feliz por poder compartilhá-lo com vocês – junto das impressões mais que positivas que tenho dele.

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AH, I SEE, YES, INDEED… SO, THERE WAS NO ACTUAL DAMAGE AFTER ALL, IS THAT RIGHT?


“They say it strikes one person in a hundred. One person, just like that… at random. That’s all they told me. They never tell you how crazy you are. Just that you’ve lost it, that you’re beside yourself… out of your mind…

So a little bit more, a little bit less… What’s the point of knowing? Knowing how many centimetres you’ve slipped…”

Jérémy ClapinSkhizein, 2008.

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CARTAS AO BRASIL


Querido,

Parque do Bonaval – Santiago de Compostela

Esta correspondência salva meu dia. Extraviada, ignorada ou bem quista, enviá-la a você basta por si – organiza os desejos e os próximos passos. Faz sol, e percebo a razão de se começar cartas relatando o tempo: ajuda a visualizar o remetente, entrever o humor, imaginar que tipo de roupas veste. Como o dia está luminoso, estão todos no parque, armando piqueniques e rindo alto. Tudo isso precisa estar claro, para que você compreenda o peso de eu estar em meu quarto escrevendo para o Brasil, enquanto planejo a próxima fuga pela África.

O calor deixa a Galícia mais bonita. Os alunos têm aprendido com facilidade o Simple Past dos verbos irregulares, e as compositions só me surpreendem. Já falei das duas irmãs, que graciosas? Uma delas é mais alta e magra, cabelos curtíssimos, loira, olhos de nuvem cinza.

A voz bem firme é rouca pelo cigarro de vários anos, e o galego que sai de sua boca vem sempre com sorriso e leve inclinação lateral da cabeça. A outra é uma cópia mais baixa e com curvas da primeira: também é loira, terna e usa cabelos curtos. São solteironas na casa dos quarenta/cinqüenta, mas é difícil dizer, as espanholas se cuidam bastante.

Dar aulas me proporciona um contato extraordinário com A Coruña, a região da Galícia em que vivo. Eles, os estudantes, não cansam de indicar praias, interiores, comidas, restaurantes, festas típicas. Nos exercícios para casa contam histórias da terra, são enciclopédias, todos eles.

A segunda turma da noite é composta basicamente de homens e me sinto muito bem diante da sala, latino-americana saída das fraldas, facilitando uma segunda língua para esses homens maduros do velho mundo. Tenho a sensação de que sou capaz de tudo.

A viagem tem sido o melhor dos espelhos. Você sabe, por mais milhas que se corra, um não foge de si jamais. Atravessei um oceano à procura de uma primavera que só esperava meu consentimento pra florescer. Ao cabo de tantas experiências empacotadas na mochila, a fachada de viajante é o disfarce perfeito pra minha solidão crônica. Não sou tão aberta como à primeira vista aparento, você também sabe. Deixo todos nos parques, enquanto eles é que me deixam livre para o som de Miles Davis e para os planejamentos da próxima empreitada – atravessar o estreito de Gibraltar e conhecer o Atlas, o Saara, os berberes.

O movimento e a necessidade rasgada que alimento de nunca estar parada. Mas ir para a rua em dias como este é inevitável por aqui,  arranca o mofo das entranhas. Aqui do meu quarto cheio de postais do mundo, aceno um bom dia ao vizinho polonês, assisto ao alemão do apartamento da frente caminhar preguiçoso até a lavanderia, os braços cheios de roupa suja.

O Cabo-Verdeano passa apressado por minha janela e bate a porta da rua, vai ver o mundo novo lá fora – apenas possível graças à recém-chegada estação. Vai sorrir para transeuntes e dar risadas amistosas da simpatia característica dos dias primaveris. Os corações abertos e coloridos imperam em dias assim, até a senhorinha abusada da padaria abrirá um sorriso para ele. Estamos todos cientes disso, por isso saímos muito mais confiantes de casa.

Mas por ora permaneço aqui e não consigo evitar questionamentos. Na gana de organizá-los, lembrei de casa. Deixo estar mais um pouco com os livros, os mapas e os cadernos. Ao bem da verdade, dou notícias, mas antes de tudo, saúdo minhas raízes, agradeço pelas possibilidades que pousam à minha janela enquanto dou água à plantinha que ganhei de Andréas – meu companheiro de apartamento, e me auto-afirmo satisfeita, antes de sair pelo parque com os novos meus.

Esta carta então cumpre o propósito de atestar as flores, o começo da correspondência já é seu próprio fim: não chove, está calor, o dia acontece lindo lá fora. Daqui de dentro, sinto que posso fazer qualquer coisa tendo como ponto de partida essa escrivaninha ensolarada. Sorrio, e as saudades que sempre levo comigo também se iluminaram com a manhã.

Amor,

Janaína

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.