Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

LEMBRANÇAS DA ADOLESCÊNCIA


“Não sou nada
Não quero ser nada
Não posso querer ser nada
A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Tabacaria, Álvaro de Campos

Pariu-se daí um primeiro passo nos caminhos da condição humana aos catorze anos. Apenas começava, pela própria natureza do que eu adivinhava naquela hora – que o ser é um processo transitório e mutável. Ocorreu-me que eu não fosse nada, dado o estado impermanente de tudo que eu representava.

Doente de contradições, inconformada pela imperfeição, incerta, volúvel. Fiquei enredada e aflita. Depois de eternas e tão breves tormentas, acho que serenei. E tive um lapso da consciência de que não posso ter consciência do que me define. Mas me mantive fechada. Observadora.

Não era nada, estava no mundo. Diante dos olhos, nada se assomava que não fosse só e jocosamente o Eu, transfigurado em um resto de Mim a que chamam de O Alheio/O Outro/O Próximo.

Enquanto os olhos piscam,
e a boca conversa e o corpo
trabalha ou frui, um mundo está,
mas é um reflexo.

Era difícil projetar essas inquietações em conversas informais.
O namorado franzia o cenho e mudava de assunto. Confuso.
Então [não só por isso, está certo] falava sozinha no meio da rua.
Lia no intervalo da escola, lia enquanto atravessava avenidas.

Riscava nas paredes
do quarto de dormir,
com tinta guache,
os versos prediletos.

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Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.

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