Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

CARTAS AO BRASIL

Querido,

Parque do Bonaval – Santiago de Compostela

Esta correspondência salva meu dia. Extraviada, ignorada ou bem quista, enviá-la a você basta por si – organiza os desejos e os próximos passos. Faz sol, e percebo a razão de se começar cartas relatando o tempo: ajuda a visualizar o remetente, entrever o humor, imaginar que tipo de roupas veste. Como o dia está luminoso, estão todos no parque, armando piqueniques e rindo alto. Tudo isso precisa estar claro, para que você compreenda o peso de eu estar em meu quarto escrevendo para o Brasil, enquanto planejo a próxima fuga pela África.

O calor deixa a Galícia mais bonita. Os alunos têm aprendido com facilidade o Simple Past dos verbos irregulares, e as compositions só me surpreendem. Já falei das duas irmãs, que graciosas? Uma delas é mais alta e magra, cabelos curtíssimos, loira, olhos de nuvem cinza.

A voz bem firme é rouca pelo cigarro de vários anos, e o galego que sai de sua boca vem sempre com sorriso e leve inclinação lateral da cabeça. A outra é uma cópia mais baixa e com curvas da primeira: também é loira, terna e usa cabelos curtos. São solteironas na casa dos quarenta/cinqüenta, mas é difícil dizer, as espanholas se cuidam bastante.

Dar aulas me proporciona um contato extraordinário com A Coruña, a região da Galícia em que vivo. Eles, os estudantes, não cansam de indicar praias, interiores, comidas, restaurantes, festas típicas. Nos exercícios para casa contam histórias da terra, são enciclopédias, todos eles.

A segunda turma da noite é composta basicamente de homens e me sinto muito bem diante da sala, latino-americana saída das fraldas, facilitando uma segunda língua para esses homens maduros do velho mundo. Tenho a sensação de que sou capaz de tudo.

A viagem tem sido o melhor dos espelhos. Você sabe, por mais milhas que se corra, um não foge de si jamais. Atravessei um oceano à procura de uma primavera que só esperava meu consentimento pra florescer. Ao cabo de tantas experiências empacotadas na mochila, a fachada de viajante é o disfarce perfeito pra minha solidão crônica. Não sou tão aberta como à primeira vista aparento, você também sabe. Deixo todos nos parques, enquanto eles é que me deixam livre para o som de Miles Davis e para os planejamentos da próxima empreitada – atravessar o estreito de Gibraltar e conhecer o Atlas, o Saara, os berberes.

O movimento e a necessidade rasgada que alimento de nunca estar parada. Mas ir para a rua em dias como este é inevitável por aqui,  arranca o mofo das entranhas. Aqui do meu quarto cheio de postais do mundo, aceno um bom dia ao vizinho polonês, assisto ao alemão do apartamento da frente caminhar preguiçoso até a lavanderia, os braços cheios de roupa suja.

O Cabo-Verdeano passa apressado por minha janela e bate a porta da rua, vai ver o mundo novo lá fora – apenas possível graças à recém-chegada estação. Vai sorrir para transeuntes e dar risadas amistosas da simpatia característica dos dias primaveris. Os corações abertos e coloridos imperam em dias assim, até a senhorinha abusada da padaria abrirá um sorriso para ele. Estamos todos cientes disso, por isso saímos muito mais confiantes de casa.

Mas por ora permaneço aqui e não consigo evitar questionamentos. Na gana de organizá-los, lembrei de casa. Deixo estar mais um pouco com os livros, os mapas e os cadernos. Ao bem da verdade, dou notícias, mas antes de tudo, saúdo minhas raízes, agradeço pelas possibilidades que pousam à minha janela enquanto dou água à plantinha que ganhei de Andréas – meu companheiro de apartamento, e me auto-afirmo satisfeita, antes de sair pelo parque com os novos meus.

Esta carta então cumpre o propósito de atestar as flores, o começo da correspondência já é seu próprio fim: não chove, está calor, o dia acontece lindo lá fora. Daqui de dentro, sinto que posso fazer qualquer coisa tendo como ponto de partida essa escrivaninha ensolarada. Sorrio, e as saudades que sempre levo comigo também se iluminaram com a manhã.

Amor,

Janaína

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Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.

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