Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

À CIDADE ONDE NASCI


Fortaleza,

A cidade onde nasci age sobre mim, desgoverna a razão das minhas forças.

Eu a respiro com inspirações longas e curtas expirações – ares de Fortaleza jamais me abandonam os pulmões. Encontrá-la após cada braçada no mar de mundo renova oxigênio de dentro, troca matéria mofada por frescor. E, no entanto, feito a cirurgia que é, arrepia-me a espinha de paciente, faz-me tremer a voz de filha.

Não pude descer do avião tão logo pousei em Pinto Martins. As portas da aeronave se abriram, estive sentada, o olhar fixo sobre as luzes de sinalização. Não foi aflição simples, deu-me uma espécie genuína de pânico. Quis estar em ônibus de rota circular e esperar a meia-volta. A emoção teimosa saltava-me pela boca seca, os pensamentos desalinhados não alcançavam a compreensão de tanto disparato.

A família reunida à espera no próprio aeroporto, os abraços dos amigos tão firmes nas saudades, todos os lugares cujas imagens difusas perseguiram cada final de semana na cidade maravilhosa – mas mãe dos outros. Como, medo? O juízo deu voltas, mas não pôde explicar-se tão já.

Meu corpo sabia e o sabe: Fortaleza, meu quintal, meu castelo de areia, minha guerreira índia, você me apavora. O magnetismo dos caminhos já traçados sobre suas ruas, Fortaleza, desgosta-me. Tanta água passada mina o meu mapa de si, sobra-me pouco espaço para criação. A distância espaço-temporal proporcionada pelo novo projeto – de retomadas e alguma madureza – é-me terapêutica. A mão trêmula que se agarrou à mala na tentativa de encontrar aprumo antes de deixar o saguão das bagagens sabia disso, foi sintomática.

Fortaleza é meu quintal apenas porque não a deixo ser-me matadouro. Assim, a dicotomia dos sentimentos embaralha, por vezes, meu raciocínio – mas jamais engana a flor da minha pele. Pouso em você, Fortaleza, e meu corpo apavorado e amoroso percebe que eu estava com saudades minhas.

Somos duas e distintas,mas admito: embora a distância seja necessária, pisar-lhe a duna reafirma todo propósito da sedefome de marmundo. Olho o espelho e, afinal, está lá: aquela, a outra, esta mesma. Saída de escombros alheios e tão familiares. Forjada leve de uns punhados generosos de gravidade e peso. Quem olha atrás de si e canta o contentamento de hoje. Tão no início do voo ainda, com ideias de asas gigantes. A costura do impossível, no encalço de fazer todos os sentidos e de se deixar por eles ser refeita – outra e outra vez.

Fortaleza, minha casa, meu erro, meus ais, eu a amo. Mesmo em silêncio, mesmo à distância. E, quando meu corpo treme por pavor a você, é quando mais sei o quanto a tenho e quero.

Sua,
Janaína.

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Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.