Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

VIPASSANA I – a observadora e o turbilhão

Fico. Resisto à fuga, sento no agora, sinto um sem número de sensações por toda parte. A impaciência, a ansiedade, a dor, a dúvida, a dormência. A constante mudança na intensidade com que se apresentam os impulsos de saltar o pensamento para o futuro, ou mergalhar de cabeça no passado. Assisto a mim e me pergunto se é possível ser o sujeito e o objeto de um verbo dessa maneira. Estar nesta e naquela ponta.

Então tento não estimular os questionamentos, embora eles se desenrolem ao menor descuido meu. Em questão de segundos, relegados, eles se espalham por todo o meu corpo como um zumbido de abelhas vingativas em cardume. Estão nervosos, querem atenção. Sinto a pressão que exercem para que eu abra os olhos e saia do estado de sufocamento.

Às vezes, um espasmo dá choque na mão esquerda. Às vezes, os músculos do ombro esquerdo se contraem numa cãimbra. Às vezes, a mandíbula sobe e desce sem que eu me dê conta de mim. Respiro e observo. Menos de cinco minutos. É o tempo de cada um desses acontecimentos. Depois disso, desaparecem. Depois de desaparecidos, voltam à superfície. De novo, ameaçadores. De novo, passageiros.

Reconheço o redemoinho, acompanhou-me a vida inteira. Aqui, de olhos fechados e cheia de palpitações, é como estar numa cela com ele. Os pensamentos ansiosos, as sensações sufocantes. Cara à cara. Sem fuga, sem reação, sem empatia nem antipatia. Inspiro e observo. Expiro e observo. Eles somem. Continuo aqui. A espreita para quando eles retornem. Cada vez mais fracos, eles. Eu cada vez mais distribuída entre a observadora e o turbilhão.

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.

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