Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

A CIDADE DEMOCRÁTICA


a bubuia das senhorinhas – Catete, 2012

* impressões da cearense refugiada meio no Centro, meio na Zona Sul do Rio com breves idas à Zona Norte e ainda muitíssimo a conhecer.

Tente caminhar pela Rua do Catete às duas da tarde. Se o deslocamento é questão de guerra, a profusão de senhorinhas é golpe acachapante. Isso e, claro, a boa e velha caminhada diagonal. Você puxa para a direita, a senhorinha para na vitrine da loja. Você investe na esquerda, “opa!” Ela vê a amiga. Quando enfim a ultrapassagem acontece, você tropeça no cachorro e se acaba de dó.

Se a questão é defesa física, desvie das pessoas, esteja atento. Elas, é muito provável, não desviarão de você. Mister também é assumir a sua pressa, caso você precise mesmo muito dela, e não se estressar com os comentários. Dia desses, levei uma ralha de um senhorzinho no metrô, enquanto o ultrapassava na descida da escada rolante. “Mas pra onde se vai com essa correria!”. Eram quase sete da manhã, eu ia para o trabalho. Será tão incomum?

É incomum.
O metrô de São Paulo em hora de rush parece o Titanic com apenas o nariz de fora da água e ainda cheio de gente a procura do bote – ok, mais organizado um pouco. O metrô do Rio nos mesmos horários é cheio também, mas nem de longe tão desesperado. Mesmo a pressa da coletividade é meio relaxada. As pessoas param numa perna só muito mais por essas bandas. Repare. Deus abençoe os malandros e me livre desse estresse de jovem desacostumada.

As vias quase nunca são quadradas, os bairros são curvilíneos. Becos começam do nada e dão em lugar algum. É o jeito Rio, é charmoso. Por que sempre caminhar em linha reta? Por que se furtar de olhar pros lados e ver amigos, cachorros, fachadas, manchetes na banca de jornal? E esse pudor de esbarroadas nos leva aonde? São questionamentos mais do que mudanças de pensamento. Aos poucos, fico mais no diminutivo, mais tranquila, mais sinuosa [menos civilizada?]. E continuo igual.

Tenho uma teoria para a má educação carioca – tão praguejada por paulistas e estrangeiros em boa monta. É a da cidade democrática em uma nação como a brasileira, onde o abismo social é imenso. A circulação nos bairros do Rio é enorme. A densidade de transeuntes, botecos, bancas de jornal e senhorinhas [transeuntes menos velozes, valem categoria própria] expõe todo mundo a todo mundo o tempo todo.

Quanta gente se esconde nas cidades sitiadas? Gentes dos mais destoantes graus de educação confinadas cada qual em mundos particulares, tacanhos, boçais e enfadonhos? Estar rodeado de iguais, padronizados e previsíveis companheiros. É a vontade imperial! Não, obrigada. Prefiro a maestria humana da diversidade. Veja bem, não digo que o Rio seja uma cidade democrática absoluta, nem que não seja partida. Só digo que as ruas parecem mais misturadas que as de Sampa [que eu adoro], mais heterogêneas.

Não conheço estatística sobre a civilidade relativa do carioca frente a outras regiões do país. Existe? A experiência desses derradeiros meses me faz afirmar com certa veemência apenas a notável habilidade local à informalidade. Mas não compartilho da ideia do carioca pouco civilizado. Se colocarmos todas as pessoas da terra nas caixas que nos apetecem, qual o sentido de viajar? Qual o sentido da liberdade?

Prefiro pensar que aprendo com eles a viver mais e a passar pelo mundo bem menos sisuda. Mesmo quando cospem na rua e gritam no ônibus e falam sozinhos sem o menor acanhamento. Mesmo quando não dão bom dia e o atendimento é péssimo. Tantas reclamações tenho da minha própria terra. Nada me dá o direito de julgar de maneira tão dura a dos outros – que também é minha, que também me define, quer eu queira, quer não.

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FANTASIADO DE FOLIÃO, SEU CORAÇÃO DEU SALTOS NA GUANABARA


A banda plantava marchinhas nas memórias alteradas da gente. A cidade tomada pela sensação atemporal dos feriados festivos fazia graça dos moradores, transvestida noutro tempo, doutra cidade qualquer. E não era só a música, ou nada assim apenas – senão também um calor sem véspera, uma folia desfeita de começos, perdida das beiras, clandestina.

Ela fazia silêncio com a dança, cansava o peito com as letras das canções – o peito vazio. O cordão rompia a avenida, desconhecido dela, ela desconhecida dele. Defendida pela multidão da necessidade de se explicar, de fazer companhia, de ser quem se pensa ser. Dançava.  Os olhos sem apelos passavam por perdidos. Não procuravam nada.

Estava sozinha por gosto, quase por força, mas por gosto – no misto das sensações obrigatórias/voluntárias, quando não existe outra escolha senão seguir a própria vontade sem meios termos. Mas, se só, não estava inteira, sabia disso. Faltavam umas penas, alguma cor de fruta. Faltava, no intransitivo, no inexplicável. Tanto queria a independência, conseguiria quando dependesse – quando se permitisse. Era assim.

Mas ali não desejava a lembrança desses fatos. Ali ainda era tarde, e de nada lhe adiantaria o esforço do contrário. Ali estavam as serpentinas, suspensas. Depois – seria possível não falarmos disso tão já?– voltaria ao inevitável. Junto dos garis varreria a sujeira das ruas, procuraria os objetos pisoteados, mas de ainda algum valor, encararia as perdas e as tarefas imediatas. Na quarta. Ou na segunda da semana seguinte.

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LOBOS BOBOS E MORRINHOS CARNUDOS


Mark Wahlberg por LaChapelle

A raça com pênis oscila entre infindas possibilidades tempe- ramentais, mas, ok!, tem amor pela carne. Como se externa o sentimento é o colorido da história. Se minha autoestima enfrentasse período tene-broso, hoje pela manhã teria sido a lavagem da burra. Pus calça colada de ginástica e me joguei na corrida pelo aterro do Flamengo. Sucesso retumbante.

O morrinho carnudo entre as minhas pernas, seguido delas próprias, e afinal a buzanfa – conferida através da clássica pescoçada masculina, foram alvo das mais desinibidas demonstrações de afeto. O carioca é mesmo macho por excelência.

A coroação aconteceu na loja de sucos. Cliente suada, pesquiso o quadro de preços, ainda da calçada. Decido pela acerola e olho para os atendentes, um deles é projeto de Neymar, mas com boné para maior discrição do penteado, o outro nutre o rosto dos safados baixinhos, o tipo com cabelo na máquina, corpo em dia, meio sorriso. Tem talento estético pra cafajeste.

Ambos estão com a vista fixada à cola bem na minha tal protuberância. Ao se perceberem flagrados, desviam a atenção, cada qual para um lado da rua. No cinema, seria hilário – aqui peço perdão às feministas. Numa manhã de terça-feira, na minha vida, sobre a minha periquita, eu contenho a risada e dou ‘bom dia’.

“Ainda deu ‘bom dia’?”, questiona minha companheira de apartamento – uma loiraça cheia de potencial para cenas como essas. Dei, sabe. Abraço o capeta, faz meu estilo. E gosto de conversar. Sento numa loja dessas pelo suco, pelo movimento da praça e pela prosa.

Além do mais, é divertido, entende? Passou-se meu tempo das bochechas rosadas diante de situações assim. Durante a TPM e com abordagens mais agressivas, tem a raiva – claro, seguida do eventual sermão do cérebro por detrás da vagina de um milhão de dólares. Mas, em dias de bom humor e com lobos mansos, não mata nem engorda. Deixa os meninos imaginarem.

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O DOM DA MEMÓRIA ABSOLUTA


Barco para Ásia – maio de 2009

“Mas eu conheço a solidão. Três anos de deserto me ensinaram bem seu gosto. O que me contrista não é a mocidade que se gasta numa paisagem mineral. É o pensamento de que, longe de nós, é o mundo que envelhece. As árvores formaram seus frutos, as terras deram seu trigo, as mulheres se fizeram belas. Mas a estação avança. Seria necessário voltar para lá depressa… Mas a estação avança – e estamos presos, à distância. E os bens da terra deslizam entre nossos dedos como a fina areia das dunas.”

Terra dos Homens, Saint-Exupéry

Não sabia nada de si até estar tão só.

Nem entendia do outro. Até o eco da primeira risada autônoma, primitiva, violenta… divertiu-se pela platéia.

Das experimentações de alteridades, quem fica é o ser. Essa eterna companhia de ares graves e meninos. Vinda de dentro. Para compreender-se, silencia. Para melhor análise do mundo, o espelho. Para amar, solidão. Depender-se. Até o dia em que chegue o outro e, sem tato, desfaça o equilíbrio bem nutrido dos dias ímpares.

Porque alheio, invade. Porque tão diferente, assusta – espalha os papéis pela sala, destoa das cores do quarto, troca os móveis de lugar. Faz pouco da escolha dos quadros – é sem querer. Seja bem vinda, tormenta. É sua a casa construída.

Para o outro é o vivo. Mas é vivo em si. E sem um eu que interesse a si mesmo e contente a si mesmo, não lhe valem os outros, não lhe podem bastar nunca.

Ao deserto, um brinde.

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BOM DIA, SERENO


Mulher galega em dia de domingo – setembro de 2008

Já riu da cara do perigo, como o leãozinho do desenho animado da Disney. E achou bom. Flertou com o abismo e pulou sem medo. Nada a perder. Subiu no topo da onda, olhou lá de cima e deu uma cusparada. Pra cima. Outra e outra vez. Porque sim. Pelo arrepio.

Os dias de hoje foram feitos pra uma pisada mais tranquila. Primeiro o calcanhar, depois o peito do pé. Um de cada vez. Um de cada vez. Sem perder o mapa de vista. Sem deixar de olhar o chão. Parece mais velha. Porque está. Talvez não largue mais caminho por vereda. Talvez, com mais frequência, primeiro olhe para dentro de si.

E reze: Que a minha loucura serene sem morrer.

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TENHA UM POUCO MAIS DE FOME, MEU AMOR


Praça do BNB – Centro de Fortaleza – Dezembro de 2009

Nunca mais seremos tão jovens…

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PAGO PELO MEU SOSSEGO


Cedo ou tarde.

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.