Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

VIPASSANA I – a observadora e o turbilhão


Fico. Resisto à fuga, sento no agora, sinto um sem número de sensações por toda parte. A impaciência, a ansiedade, a dor, a dúvida, a dormência. A constante mudança na intensidade com que se apresentam os impulsos de saltar o pensamento para o futuro, ou mergalhar de cabeça no passado. Assisto a mim e me pergunto se é possível ser o sujeito e o objeto de um verbo dessa maneira. Estar nesta e naquela ponta.

Então tento não estimular os questionamentos, embora eles se desenrolem ao menor descuido meu. Em questão de segundos, relegados, eles se espalham por todo o meu corpo como um zumbido de abelhas vingativas em cardume. Estão nervosos, querem atenção. Sinto a pressão que exercem para que eu abra os olhos e saia do estado de sufocamento.

Às vezes, um espasmo dá choque na mão esquerda. Às vezes, os músculos do ombro esquerdo se contraem numa cãimbra. Às vezes, a mandíbula sobe e desce sem que eu me dê conta de mim. Respiro e observo. Menos de cinco minutos. É o tempo de cada um desses acontecimentos. Depois disso, desaparecem. Depois de desaparecidos, voltam à superfície. De novo, ameaçadores. De novo, passageiros.

Reconheço o redemoinho, acompanhou-me a vida inteira. Aqui, de olhos fechados e cheia de palpitações, é como estar numa cela com ele. Os pensamentos ansiosos, as sensações sufocantes. Cara à cara. Sem fuga, sem reação, sem empatia nem antipatia. Inspiro e observo. Expiro e observo. Eles somem. Continuo aqui. A espreita para quando eles retornem. Cada vez mais fracos, eles. Eu cada vez mais distribuída entre a observadora e o turbilhão.

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BOM DIA, SOLEDAD


Quem fica é o ser.
Eterna companhia
de ares graves
e meninos.

Vinda de dentro,
atravessa o outro
e é por ele atravessada.

Mas é sozinha
e livre e ama.
Até não ser mais.

[aonde o pensamento vai quando

se escuta Astor no café da manhã]

 

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CONSTÂNCIA LUDDITA


Era manhã de agosto

Já os anos passavam depressa

Quando Constância quebrou

A máquina dentro de si,

 

E o relógio do mundo permaneceu.

 

Outro dia veio. Depois mais um.

Sem estrondo nem abalo.

 

As novelas se repetiam no Leblon.

O trânsito enlouquecia toda gente.

Os malucos falavam sozinhos na rua.

Os neuróticos falavam sozinhos na rua.

A banca de flores da esquina seguia 24h.

 

Ninguém dava pela falta

Da máquina estraçalhada

Dentro do coração de Constância.

 

E não havia o que fazer

Com os pedaços

Senão entorna-los na pia

Ou no ralo do chuveiro.

 

Assim ela fez

A espera da reprimenda

Que nunca veio

 

Por fim, desapareceram

Os restos da maquinária

Numa terça-feira que

Bem poderia ser domingo,

Ou outra feira qualquer.

 

Nenhuma cerimônia.

 

E ela não entendia.

 

Vivera tantos agostos

Acovardada por aquele

Apêndice dentro do peito

 

Poderia jurar que

Morreria com ele

 

De pensar em quebrá-lo

Coisa que ainda jovem

Assombrava-lhe os sonhos

Sentia calafrios de terror

 

Quantas vezes

Apenas por cogitá-lo

Já se sabia imprudente

 

Olhava para os lados

Esperava a prisão sumária

A condenação à pena capital

E agora isto.

Este silêncio.

Toda normalidade.

 

Constância, livre

Da máquina afinal

Estava quase

A fazer meia volta

 

Foi quando deu por si

Sozinha no banheiro molhado

Plantada diante do espelho

 

Íntima do próprio reflexo

Viu uns olhos chispados

De recém-nascida

Pela primeira vez

 

Cuspida enfim para a face da terra

Era animal nova, criadora, criatura

E nem bem parida, já estava de pé.

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À JOAQUINA, DESCONSELHOS


[é bem verdade no mundo existirem tantas qualidades de mulheres quantas mulheres existam. mas isto aqui é sobre Periquitas e Joaquinas]

menininha naturista na lagoa do Peri - Floripa, 2012

menininha naturista na lagoa do Peri – Floripa, 2012

Minhas salvas às vadias. São elas a terra fértil dos homens livres. O que a língua alheia empobrecida não alcança é a tamanha braçada no mar arredio que é pôr-se do lado de fora das fronteiras do estabelecido, onde o gozo é uma bomba atômica asmática e sem sobreviventes. Não o alívio temporário de uma obsessão pelo homem a quem perseguimos.

Joaquina, você aprendeu o amor como fosse uma febre terçã, e dessa doença morre de olhos abertos. Não alimente ilusões: à mulher cabe debater-se contra os próprios muros um tanto mais do que ao homem. A ela destinaram gaiolas com grades laminadas e essenciais à manutenção da moral e da sociedade como as conhecemos. Ornadas e fatais. Se, enquanto delas nos livramos, além de roxos e rasgos, ainda outras nos reservam o falatório nas janelas… é embaraçoso. Pras linguarudas!

Estes seus dedos em riste na minha cara, Joaquina, hão de ser sua desgraça. Enquanto se ocupa da minha cama, suas pernasmãossexos braçosorelhaspescoços perdem-se na repetição de movimentos esvaziados de si. E você sufoca suas necessidades de fêmea para que a si não apontem dedos em riste. Então o faz comigo, porque está borrada de medo. Por que não sairá da gaiola, Joaquina? Pra quê alpiste se frutas do mato esperam as mordidas das bocas desavergonhadas? Sinta o sumo escapar pelo canto dos lábios, escute este sexo latejante e deixe os grilos se perderem na noite.

Eu digo: quebre seu punho antes de ocupar estes dedos a outras atenções que não as descobertas de seu próprio corpo. Se você passa e ladra, as Periquitas passarinham.  O tempo nos leva a todas em igual medida. E repito: olhe, nosso corpo é nosso. Não é ação na bolsa para se desvalorizar a cada alto e baixo – à espera angustiada do dono mais definitivo. Gozamos quando nos levamos ao gozo e perdemos o tino, não quando eles nos sacodem a coelhadas e, exaustas, fingimos uma síncope. Nós gozamos e transfiguramos. E sei lá nosso rosto como faz. E sei lá se nos desmanchamos desajeitadas e cheiramos à dobradura de pele. É preciso prática, cariño. Além de algum desprendimento. Deixa eu ser bem clara quanto à minha aposta: é preciso errar.

Joaquina, minha menina emburrada, minha para nada inimiga, com tanto mundo lá fora por devorar ainda… Tire este dedo estirado da frente do meu nariz e vá brincar na areia. Faz sol.

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ASSIM


Escalamos até os últimos andares dos edifícios

e de lá os gritos esvaziam o burburinho da rua.

Nuas, a cidade nos espreita as constelações cruas de frio e susto.

A vida não é nada além desse corpo que responde ao vento e se lança.

Quando abriam as portas dos nossos quartos,

lá estávamos no meio do ato – Tieta, Carmem, Gal.

E, mesmo diante do pavor e do flagra,

chegou o dia em que não sabíamos mais

a fina distinção entre outras e nós.

Quando tentamos o nexo e todos os raciocínios

deságuam na emoção suada de espraiar-se mulher.

O salto nos põe no ar.

E nos estica a perna.

Assume o impulso.

Pede do corpo acompanhar

o movimento primeiro.

Sem músculos, nem força.

Olhos fechados,

mundo lá fora

e aqui dentro: dança.

Uncovered, de Jordan Matter - NYC.

Uncovered, de Jordan Matter – NYC.

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À CIDADE ONDE NASCI


Fortaleza,

A cidade onde nasci age sobre mim, desgoverna a razão das minhas forças.

Eu a respiro com inspirações longas e curtas expirações – ares de Fortaleza jamais me abandonam os pulmões. Encontrá-la após cada braçada no mar de mundo renova oxigênio de dentro, troca matéria mofada por frescor. E, no entanto, feito a cirurgia que é, arrepia-me a espinha de paciente, faz-me tremer a voz de filha.

Não pude descer do avião tão logo pousei em Pinto Martins. As portas da aeronave se abriram, estive sentada, o olhar fixo sobre as luzes de sinalização. Não foi aflição simples, deu-me uma espécie genuína de pânico. Quis estar em ônibus de rota circular e esperar a meia-volta. A emoção teimosa saltava-me pela boca seca, os pensamentos desalinhados não alcançavam a compreensão de tanto disparato.

A família reunida à espera no próprio aeroporto, os abraços dos amigos tão firmes nas saudades, todos os lugares cujas imagens difusas perseguiram cada final de semana na cidade maravilhosa – mas mãe dos outros. Como, medo? O juízo deu voltas, mas não pôde explicar-se tão já.

Meu corpo sabia e o sabe: Fortaleza, meu quintal, meu castelo de areia, minha guerreira índia, você me apavora. O magnetismo dos caminhos já traçados sobre suas ruas, Fortaleza, desgosta-me. Tanta água passada mina o meu mapa de si, sobra-me pouco espaço para criação. A distância espaço-temporal proporcionada pelo novo projeto – de retomadas e alguma madureza – é-me terapêutica. A mão trêmula que se agarrou à mala na tentativa de encontrar aprumo antes de deixar o saguão das bagagens sabia disso, foi sintomática.

Fortaleza é meu quintal apenas porque não a deixo ser-me matadouro. Assim, a dicotomia dos sentimentos embaralha, por vezes, meu raciocínio – mas jamais engana a flor da minha pele. Pouso em você, Fortaleza, e meu corpo apavorado e amoroso percebe que eu estava com saudades minhas.

Somos duas e distintas,mas admito: embora a distância seja necessária, pisar-lhe a duna reafirma todo propósito da sedefome de marmundo. Olho o espelho e, afinal, está lá: aquela, a outra, esta mesma. Saída de escombros alheios e tão familiares. Forjada leve de uns punhados generosos de gravidade e peso. Quem olha atrás de si e canta o contentamento de hoje. Tão no início do voo ainda, com ideias de asas gigantes. A costura do impossível, no encalço de fazer todos os sentidos e de se deixar por eles ser refeita – outra e outra vez.

Fortaleza, minha casa, meu erro, meus ais, eu a amo. Mesmo em silêncio, mesmo à distância. E, quando meu corpo treme por pavor a você, é quando mais sei o quanto a tenho e quero.

Sua,
Janaína.

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A PASSAGEM DO TEMPO ANDARILHA


Continuo com a vista perdida no horizonte,
As caminhadas tagarelas, os fones altíssimos,
As saudades do futuro, as questões de várias respostas
E os sentimentos mutantes.
 
Continuo e os contos e as comidinhas leves
E os filmes estranhos e os amigos viajantes
E o pulso apaixonado de mundo.
 
Continuo. O poço de emoções ferventes. A labareda.
Crio raízes aéreas? Descubro de mim? Traço rotas?
Faço silêncio. Olho o sol. Convivo. Está tudo, e queima.

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.