Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

[chinando] O DESACORDO DE TODO DIA


salada de raiz de lótus

Salada de Raiz de Lótus – Baoyuan Jiaozi Wu, Beijing

A comida chinesa e eu estamos nas preliminares. Todos os dias, como quem caminha em direção à forca, peço um prato diferente. “Menos pimenta, por favor”. Depois de nihao [oi] e xie-xie [obrigada], que aprendi por osmose, com toda gente a quem contei da viagem, a primeira palavra que ativamente procurei no dicionário foi lá [apimentado].

[a pronúncia das  palavras em mandarim não está representada pela minha escrita fonética preguiçosa]

Começou em Baoyuan Jiaozi Wu, Beijing, onde pedi uma salada de raiz de lótus com molho da casa – e “pouca pimenta, por favor”. Desde o marco-zero, repito o mantra. Logo na primeira palitada, bebi metade da caneca de um litro daquele tipo de cerva leve e meio aguada. A língua inteira queimava. Não era uma pimenta para as papilas da frente, ou para as lá de trás, ou para a garganta. Toda a minha língua queimava por igual, e tive a sensação nítida de que ela estava assando dentro do forno que agora era minha boca. Recostei na cadeira e comecei a imaginar como diabos seria minha reação à primeira palitada se eu não tivesse pedido uma versão menos apimentada do prato.

Confesso que curti. Antropologicamente falando. Só que precisei abrir na metade porque o meio da minha barriga, quatro dedos acima do umbigo, começou a implorar misericórdia. Desde então, sento à mesa, vejo as fotos do menu, escolho meio baseada em pesquisas anteriores, meio em curiosidade do momento, e peço. Mas, sinceridade, assim que a comida chega, parece um reflexo: sinto a pontada de agulha de doação de sangue na boca do estômago. Todas. As. Refeições.

Daí continuo brava. Ontem pedi um caldo de frutos do mar e umas ostras ao alho [que é que é aquilo, gente, de comer ajoelhada] com uma cerveja mansa – 3,1% – típica aqui de Shandong – de onde me despeço hoje, em direção ao deserto em Xinjiang. Estava tudo de bater palma, mas a barriguinha reclamou desde a primeira colher de caldo até agora há pouco, oito horas depois. Por enquanto, não tivemos briga feia. Uns desentendimentos cedo da manhã, uma indisposição para conversa no final da tarde, mas sem barracos ainda. Comprei boldo no super-mercado ontem. Quando vi as folhas secas no saquinho singelo, quase chorei de emoção.

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VIPASSANA I – a observadora e o turbilhão


Fico. Resisto à fuga, sento no agora, sinto um sem número de sensações por toda parte. A impaciência, a ansiedade, a dor, a dúvida, a dormência. A constante mudança na intensidade com que se apresentam os impulsos de saltar o pensamento para o futuro, ou mergalhar de cabeça no passado. Assisto a mim e me pergunto se é possível ser o sujeito e o objeto de um verbo dessa maneira. Estar nesta e naquela ponta.

Então tento não estimular os questionamentos, embora eles se desenrolem ao menor descuido meu. Em questão de segundos, relegados, eles se espalham por todo o meu corpo como um zumbido de abelhas vingativas em cardume. Estão nervosos, querem atenção. Sinto a pressão que exercem para que eu abra os olhos e saia do estado de sufocamento.

Às vezes, um espasmo dá choque na mão esquerda. Às vezes, os músculos do ombro esquerdo se contraem numa cãimbra. Às vezes, a mandíbula sobe e desce sem que eu me dê conta de mim. Respiro e observo. Menos de cinco minutos. É o tempo de cada um desses acontecimentos. Depois disso, desaparecem. Depois de desaparecidos, voltam à superfície. De novo, ameaçadores. De novo, passageiros.

Reconheço o redemoinho, acompanhou-me a vida inteira. Aqui, de olhos fechados e cheia de palpitações, é como estar numa cela com ele. Os pensamentos ansiosos, as sensações sufocantes. Cara à cara. Sem fuga, sem reação, sem empatia nem antipatia. Inspiro e observo. Expiro e observo. Eles somem. Continuo aqui. A espreita para quando eles retornem. Cada vez mais fracos, eles. Eu cada vez mais distribuída entre a observadora e o turbilhão.

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À CIDADE ONDE NASCI


Fortaleza,

A cidade onde nasci age sobre mim, desgoverna a razão das minhas forças.

Eu a respiro com inspirações longas e curtas expirações – ares de Fortaleza jamais me abandonam os pulmões. Encontrá-la após cada braçada no mar de mundo renova oxigênio de dentro, troca matéria mofada por frescor. E, no entanto, feito a cirurgia que é, arrepia-me a espinha de paciente, faz-me tremer a voz de filha.

Não pude descer do avião tão logo pousei em Pinto Martins. As portas da aeronave se abriram, estive sentada, o olhar fixo sobre as luzes de sinalização. Não foi aflição simples, deu-me uma espécie genuína de pânico. Quis estar em ônibus de rota circular e esperar a meia-volta. A emoção teimosa saltava-me pela boca seca, os pensamentos desalinhados não alcançavam a compreensão de tanto disparato.

A família reunida à espera no próprio aeroporto, os abraços dos amigos tão firmes nas saudades, todos os lugares cujas imagens difusas perseguiram cada final de semana na cidade maravilhosa – mas mãe dos outros. Como, medo? O juízo deu voltas, mas não pôde explicar-se tão já.

Meu corpo sabia e o sabe: Fortaleza, meu quintal, meu castelo de areia, minha guerreira índia, você me apavora. O magnetismo dos caminhos já traçados sobre suas ruas, Fortaleza, desgosta-me. Tanta água passada mina o meu mapa de si, sobra-me pouco espaço para criação. A distância espaço-temporal proporcionada pelo novo projeto – de retomadas e alguma madureza – é-me terapêutica. A mão trêmula que se agarrou à mala na tentativa de encontrar aprumo antes de deixar o saguão das bagagens sabia disso, foi sintomática.

Fortaleza é meu quintal apenas porque não a deixo ser-me matadouro. Assim, a dicotomia dos sentimentos embaralha, por vezes, meu raciocínio – mas jamais engana a flor da minha pele. Pouso em você, Fortaleza, e meu corpo apavorado e amoroso percebe que eu estava com saudades minhas.

Somos duas e distintas,mas admito: embora a distância seja necessária, pisar-lhe a duna reafirma todo propósito da sedefome de marmundo. Olho o espelho e, afinal, está lá: aquela, a outra, esta mesma. Saída de escombros alheios e tão familiares. Forjada leve de uns punhados generosos de gravidade e peso. Quem olha atrás de si e canta o contentamento de hoje. Tão no início do voo ainda, com ideias de asas gigantes. A costura do impossível, no encalço de fazer todos os sentidos e de se deixar por eles ser refeita – outra e outra vez.

Fortaleza, minha casa, meu erro, meus ais, eu a amo. Mesmo em silêncio, mesmo à distância. E, quando meu corpo treme por pavor a você, é quando mais sei o quanto a tenho e quero.

Sua,
Janaína.

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TENHA UM POUCO MAIS DE FOME, MEU AMOR


Praça do BNB – Centro de Fortaleza – Dezembro de 2009

Nunca mais seremos tão jovens…

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NOTÍCIAS DA REPÓRTER DESAPARECIDA


Ponte de Redonda – 21 de novembro de 2010

Liliane cuspia no chão toda vida que escutava falar em Redondeiro. Até ontem quando casou com um deles. Naftali acorda junto do sol, lava dois dedos de louça, bebe qualquer café e senta no batente em frente ao mar até chegar uma vizinha faladeira e fazer par de vasos. Corrinha mora na casa desenhada pelo marido e tem orgulho do lugar onde nasceu, da pesca com manzuá e da luta de seu povo. Das Dores manda dizer que vida boa é a dos outros, porque a gente não sabe como é.  A Redonda não é só o paraíso.

Tem barraco caindo em cima do morro, tem gente comendo farinha sem peixe, peixe sem farinha. Tem mulher trabalhando 12 horas por dia fazendo sustento da família com 120 reais mensais. Redonda é uma família só, mas tem parente que não se conhece, nem liga se o primo distante precisa de emprego. Redonda tem crack. Mas também tem Chico, Ramon, Palmário, Ciço, Raimundo de Marina. Tem Sid, Corrinha, Nenem, Aninha. Redonda tem Redondeiro.

E como fala, o Redondeiro. Especulam que sou policial, forasteira, pastora, paulista. Olham de lado, mas boca e olhos sorriem. Não me bateram uma porta, não me mostraram uma rabissaca. Uso o banheiro, bebo água, aceito café e pergunto… Não paro de perguntar. Redondeiro responde. Não digo que não minta nem omita nem fique encabulado e desconverse. Mas responde. E fala pra depois de as pilhas do gravador arriarem. Como é simples apurar.

Sou recebida no barraco e no chalé com a mesma presteza e pelas mesmas mulheres fortes. No mar, o terreno é dos homens, se sabe. Mas a Nação Redonda é feminina como Creta. São elas que fazem correr os boatos e o leite dos meninos. Dão fé do movimento da praia, falam de política, praguejam cafanguista. As mulheres de dezenas de filhos. “Não tinha tevê naquele tempo, minha filha. Seis horas, fechava as portas e apagava o lampião. Aí…”, lembra Das Dores, a voz muito rouca da carrada de anos fumando cachimbo e fazendo labirinto.

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POSTAIS E INTERURBANOS


Siegessäule – o Anjo de Berlim

Escrevi hoje. O dia inteiro. No trabalho. Cheguei a casa com a cabeça cansada e sentei na escrivaninha, pra escrever mais – porque é o que gosto de fazer afinal, quando não estou fazendo poeira no mundo. Ler e escrever, fugindo da realidade. É quase agressiva a maneira como me agarro às palavras escritas.

Enfim. Sentei no escritório e notei uma foto de trilho de trem ao lado do Juvenal – o notebook. Na beira do trilho, uma ruma de menino olhando pro horizonte, à espera. Uma cara amiga foi a São Luis e lembrou de mim.

O mimo chegou essa manhã, depois que saí, com direito a selo e recadinho em Bic azul. Melhor que qualquer azulejo.

No Gtalk, atualizo as informações de além mar. Términos de namoro, novas viagens, empregos aparecendo em outras partes do planeta, conhecidos saindo da prisão… E eu aqui, né? Como se estivesse assistindo a uma novela. Dói. Juro como é dor o que dá. Junto de um comichão.

Mais tarde, toca o celular. Os números a mais chamam a atenção, mas não faço caso. Com a sanha eterna das companhias de telemarketing, não me admiro em receber telefonemas nem da China. Mas atendi, e quem falou foi meu mineiro bão, meu pão de queijo pessoal e intransponível.

De algum lugar da Paulista? Não sei, saía do expediente. O barulho nervoso das ruas de lá ecoando no áudio baixo da ligação. Deu vontade de comprar as passagens no ato. Mas sosseguei o facho um pouco. Amanhã falo com a patroa. Dando certo, Corpus Christi, eu te amo!

Vamos concluir os ciclos? Vamos. Graduar, estagiar, juntar grana, investir no mestrado. Mas daí a me enganar que vivo sem a estrada… não cola.

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ESTRADA E SOLIDÃO


Capadócia - Turquia

Capadócia – Turquia

Pouco além da estrada me dá tranqüilidade e gozo descompromissado. Por ela não temo ser julgada, é sempre mais e novo o começo – o primeiro passo, outra e outra vez. E, no entanto, quando viajantes desconhecidas me aparecem para conversar das banalidades da própria vida me arrebata o pavor à solidão.

Talvez porque minha figura provoque empatia natural quando não estou às voltas com o que os amigos próximos insistem em apontar como um ar blasé de auto-suficiência. Qualquer que seja a razão, não são raras as vezes em que estranhas, e estranhos, aproximam para uma prosa.

Numa manhã de domingo eu afagava o pêlo de um vira-lata quando me chegou uma jovem senhora com os olhos aguados da emoção. Ela acabara de sair da igreja obscura dos cristãos primitivos, onde eu estivera havia pouco mais de meia hora. Era daqueles bonitos dias de primavera, estava quente e nada no cenário cheirava a abismo.

Os carvalhos dos jardins de Goreme borravam meus pensamentos sobre o cristãos do Império Romano, sobre os bangalôs da Capadócia, sobre a festa mais tarde, quando os olhos de Andy cruzaram com os meus. A estadunidense sentou ao meu lado, precisava de alguém com quem dividir as impressões arrebatadoras das pinturas da caverna que acabara de visitar.

Não sou católica e acabaria descobrindo que ela tampouco compartilhava de nenhuma religião, mas existem elos de humanidade a que um não pode escapar, e a necessidade de transcendência talvez seja um deles. A vista dela estava marejada, por culpa de um desses elos dela com os antepassados dos católicos.

Conversamos demoradamente. Ela me falou de sentimentos pessoais com tanta sinceridade e desapego que eu quase me perguntei se não era tudo encenação. Quase. Porque também não importa. A impressão que me causou é maior do a necessidade que eu tenho de que a vida seja de vera, e de que as pessoas usem sempre da sinceridade. Andy me tocou o braço e disse: “I wish I had someone of my own to talk about all this. I wish there was someone waiting for me back home”.

A andarilha solteira e sem filhos, a experiente amante das estradas, saída dos Estados Unidos para dar aulas de antropologia em Copenhagen, cuja vida me serviria de inspiração em qualquer outro momento, tocou-me o braço e, naquele toque, havia tanto afeto desesperado que eu percebi: a solidão dela era, é, e quizás sempre será, o meu maior medo.

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.