Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

O DOM DA MEMÓRIA ABSOLUTA


Barco para Ásia – maio de 2009

“Mas eu conheço a solidão. Três anos de deserto me ensinaram bem seu gosto. O que me contrista não é a mocidade que se gasta numa paisagem mineral. É o pensamento de que, longe de nós, é o mundo que envelhece. As árvores formaram seus frutos, as terras deram seu trigo, as mulheres se fizeram belas. Mas a estação avança. Seria necessário voltar para lá depressa… Mas a estação avança – e estamos presos, à distância. E os bens da terra deslizam entre nossos dedos como a fina areia das dunas.”

Terra dos Homens, Saint-Exupéry

Não sabia nada de si até estar tão só.

Nem entendia do outro. Até o eco da primeira risada autônoma, primitiva, violenta… divertiu-se pela platéia.

Das experimentações de alteridades, quem fica é o ser. Essa eterna companhia de ares graves e meninos. Vinda de dentro. Para compreender-se, silencia. Para melhor análise do mundo, o espelho. Para amar, solidão. Depender-se. Até o dia em que chegue o outro e, sem tato, desfaça o equilíbrio bem nutrido dos dias ímpares.

Porque alheio, invade. Porque tão diferente, assusta – espalha os papéis pela sala, destoa das cores do quarto, troca os móveis de lugar. Faz pouco da escolha dos quadros – é sem querer. Seja bem vinda, tormenta. É sua a casa construída.

Para o outro é o vivo. Mas é vivo em si. E sem um eu que interesse a si mesmo e contente a si mesmo, não lhe valem os outros, não lhe podem bastar nunca.

Ao deserto, um brinde.

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NEIL GAIMAN CON LIMÓN


Neil Gaiman

Neil Gaiman

Descobri Neil Gaiman não tem quinze dias e já li dois livros e um HQ do dito cujo. Engoli, ao bem da verdade, como se tivesse melado o papel com honey mustard – aquilo é capaz de deixar cocô de cavalo gostoso. Não conheço Sandman, a obra mais difundida do escritor inglês com trejeito de estadunidense. Só sei mais ou menos do que se trata porque acabei de dar o google na bicha, nada mais.

Comecei com A Paixão de Arlequim – versão adaptada da Comedia Dell’Arte Italiana sobre o amor do bufão por Missy – moça escolhida para ser sua Colombina. Paguei a bagatela de quatro mangos por umas ilustrações super decentes de John Bolton e pelo texto temperado com Sazón do Gaiman – garimpei na Fanzine. Li em minutos. Depois li de novo. E de novo.

Quando não aguentava mais, comprei Fragile Things – coletânea de nove contos fantásticos. Foi embora num domingo. Destaque para A Vez de Outubro, O Problema de Susan, O Pássaro do Sol e O Monarca do Vale. Ao fim e ao cabo, destaque para a versatilidade do homem. As narrativas fantásticas passeiam pelos mais estapafúrdios cenários, fazendo referências as mais discrepantes possíveis. Delícia.

O terceiro foi Anansi Boys. Romance, nesse demorei um pouco mais. Dormir lendo isso era um suplício. O sono chegava, e eu lutando pra manter os olhos abertos, pelo menos até o final do capítulo, ansiosa. A história é de dois deuses irmãos, mergulhados no mundo das banalidades cotidianas. O encontro familiar, provocado pela morte do pai, leva os meninos a contatos mais freqüentes com o universo a que pertencem – o sobrenatural.

Anansi, the trickiest. Para ler e fantasiar uma vida fora do marasmo, cheia de perigos e mágica. Achei o final meio apressado, meio feliz demais para o estilo dos contos que já lera de Gaiman. Mesmo assim, muito boa leitura.

Sabe do que mais? Ele é viajandão, usa o cabelo assanhado e mantém um blog. Deixa só eu acabar as leituras penduradas que parto para American Gods.

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O RETRATO DO DIA


Una película de Almodóvar

“- Olha, ali um restaurante. Quanto carro. Sinal que é boa a comida.

– Mais uma horinha e chegamos em casa.

– Você com essa eterna mania de não parar.

– Tá bem.

– Ih, tanta gente. Apresse o garçom. Tô morrendo de fome.

– Ei, garçom. Nós queremos isso e aquilo. Bem rapidinho, por favor.

– Veja lá. Aquele garçom entrou depois de nós. E logo foi atendido.

– Paciência, meu bem. Mais um pouquinho.

– De novo. Ali, esse pessoal chegou mais tarde. E já tão servidos. Você não sabe nem cobrar do garçom.

– Ah, é? Quer pressa? Olha aqui, seu garçom de merda. Traz já a comida ou…

– Ih, que vergonha. Você é um grosso, não tem educação. Só dá espetáculo.

– Amor, fiz isso por você. Se não me…

– Sempre sou humilhada em público. Foi a última vez.

– Mas, querida…

– Nunca mais entro num restaurante com você. Nunca mais, ouviu bem?

– …

– E não sou tua querida!”


[Duzendos Ladrões, Dalton Trevisan]

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FABULOUS YELLOW ROMAN CANDLES


Jack Kerouac

Jack Kerouac

“But then they danced down the streets like dingledodies, and I shambled after as I’ve been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centrelight pop and everybody goes ‘Awww!’”

*

On the Road, Jack Kerouac

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LUGAR DE REPÓRTER É NO OLHO DA RUA


Descobri Eliane Brum num sebo do Centro. A repórter gaúcha é uma das jornalistas mais premiada do país, além de ser a menina dos olhos da revista Época, mas eu nunca tinha sequer ouvido falar dela.

Enfileirada com outros tantos livros, lá estava na forma de um volume pesado e grande: O Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real. Entortei o nariz para o símbolo da Época estampado logo na primeira página, mas folheei o calhamaço, afinal era um livro de reportagens de uma mulher. Logo na contracapa já ganhei o motivo que me faltava para levar as matérias para casa: 40% de desconto.

São 422 páginas com letra grande e páginas espessas.

Reúnem 10 reportagens com as respectivas fotos e uma espécie de making of escrito pela própria jornalista. É nesses anexos que ela comenta o processo de apuração, mas também os desdobramentos de cada uma das histórias que contou.

A leitura complementar colore o texto publicado nos periódicos e é uma delícia para quem é da mesma profissão porque, além do texto fluido característico da autora, carrega uma sinceridade preciosa ao abordar questionamentos tão fortes da profissão.

Para mim é muito bacana ler as impressões dela porque são 20 anos de redação nas costas, então todos os clichês do ofício estão lá, apenas muito mais amadurecidos. Fica evidente que o repórter carrega os dilemas do jornalismo enquanto dure a carreira.

Eliane sozinha me fez reavaliar meu distanciamento dos veículos jornalísticos mais difundidos do país. Muitas vezes a gente já tem uma imagem tão cristalizada do todo, que acaba perdendo os bocados que se salvam do pacote.

Dia desses encontrei O Olho da Rua em versão digital aqui. Longe de me arrepender de comprá-lo, fiquei feliz por poder compartilhá-lo com vocês – junto das impressões mais que positivas que tenho dele.

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AH, I SEE, YES, INDEED… SO, THERE WAS NO ACTUAL DAMAGE AFTER ALL, IS THAT RIGHT?


“They say it strikes one person in a hundred. One person, just like that… at random. That’s all they told me. They never tell you how crazy you are. Just that you’ve lost it, that you’re beside yourself… out of your mind…

So a little bit more, a little bit less… What’s the point of knowing? Knowing how many centimetres you’ve slipped…”

Jérémy ClapinSkhizein, 2008.

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SÁBADOS COM JACK LONDON


 

 

“I would rather be ashes than dust!
I would rather that my spark should burn out in a brilliant blaze than it should be stifled by dry-rot.
I would rather be a superb meteor, every atom of me in magnificent glow, than a sleepy and permanent planet.
The function of man is to live, not to exist.
I shall not waste my days trying to prolong them.
I shall use my time.”

*

Jack London

*

Não adianta. Quando o final de semana se aproxima, eu compro um livro. A prateleira cheia de obras de conhecimento acadêmico que eu devo aprender pode esperar, pareço concluir. Este sábado foi a vez de White Fang, do Jack London.

Alguém pode indagar: “e essa lista de livros do seu blog é enfeite?” Não. É que existem livros que levam você para a cama, ninam, dão idéias para os sonhos dia após dia. E existem aquelas obras que atravessam a rotina exigindo exclusividade. Passam como um meteoro. London escreve assim.

Não é preciso mais que um dia para Jack. Ele é rápido como um lobo selvagem e intoxicante como whisky homemade. Quando dou por mim, não há mais páginas a virar e é preciso procurar outra ocupação pela casa. Ainda sob influência do livro, vou brincar com Theodoro Brás e procurar o lobo indomável dentro dos olhos domesticados do meu irmão. Um poodle toy.

Assim passo semanas sem lembrar de London, até que  um dia a livraria aparece com mais um aventura do jornalista americano do século passado, e eu já dou por “perdido” mais um sábado.

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.