Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

ISTO NÃO É UMA GUERRA


existe um reinado

depois de se queimar

a velha couraça

chapas de ferro, lâminas,

ombreiras, camadas mortas

de couro e suor abafado

separam a pele do mundo

e dos caminhos, inibem o contato,

caçoam os acordos de paz

e, de dentro da armadura,

sufocada, a emoção jura

que o planeta é um campo

de guerras, e que o peito

só pulsa pelas pelejas

o guerreiro,

seu corpo,

infestado de pulgas

coabitantes,

em volta das muralhas,

os campos incultos

verdejam

dentro dos muros,

entre as rochas,

a terra respira e é

simples e xucra

como os meninos

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LEIO O NOTICIÁRIO


e me acontece mais ou menos assim

Nós vivemos em um mundo em que os países precisam de reservas monumentais de dinheiro para fazer frente às crises econômicas internacionais geradas pelo excesso de liquidez.

Nós vivemos em um país com U$ 380 bilhões em caixa e com a certeza logística de que isso é bom para todos, porque diminui a vulnerabilidade da nossa economia aos choques externos.

Agora eu não questiono isso. Eu sei que se trata de uma evolução pela lógica da estabilidade brasileira frente ao mercado financeiro internacional.

E sei que essa montanha de dinheiro garante crescimento econômico que pode [pode] incrementar a qualidade de vida do brasileiro comum – seu acesso à escola e à saúde públicas, à moradia digna, etc.

Afora o fato de que esse destino nobre pode bem não ser o que há em mente das pessoas que assumem o controle da máquina; afora toda a estrutura social vertical a que dinheiro nenhum no mundo consegue mudar senão interesse político, mudança social, trabalho e cultura; ainda há um outro pesar. Pra mim.

O meu outro pesar é que, nós – pessoas, gente – sejamos uma sociedade de acumuladores. É que vivamos neste planeta imenso, cheio de vida e beleza. E haja tanta insistência em se construir dia após dia esse mundo humano paralelo acumulante, acumulável, cheio de dinheiro e de miséria.

*** saiu hoje no jornal: Brasil superou décadas de vulnerabilidade externa e cresce com menos desigualdade:  http://bit.ly/1qdniPA

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ALMOÇAM COMIGO HOJE O SACI, A CABRA-CEGA E A DEMOCRACIA DE COALIZÃO.


Nossa democracia de coalizão não é democrática, e, quando os sintomas da doença são descobertos e se mostram tão graves quanto os 38 envolvidos num tentacular esquema de fluxo de dinheiro público para fins de coalizão e de campanha, o judiciário precisa mostrar independência e firmeza. Vamos julgar os camaradas. Acima das figuras míticas líderes, acima dos propósitos pretendidos à época e da história que levou aos acontecimentos. Dura lex sed lex. Senão esvaziamos de força os tribunais e sujeitamos os três poderes ao bom juízo de um Príncipe.

Por outro lado, a defesa crua exposta acima também é uma farsa – como o é a democracia de coalização ser chamada de democracia sem maiores discussões. A opinião pública em geral se empenha no combate à consequência controversa do monstro, mas deixa quieta e mal vista a causa estrutural dele. Entre as virtudes maiores do legislativo e do executivo nacionais como estão dispostos hoje, as artes do conchavo, da artimanha e da negociata são forçosas para alguma governabilidade – em especial àqueles, mesmo votados pela maioria, desprovidos de apoio “sincero” no Congresso. Embora eu nem saiba se tal tipo de apoio exista em boa monta por ali.

“Como é ingênua, a Janaína! Isso é política”, alguns bons leitores suspiram.

Ok. Tenho uma proposta. Somos seres pensantes, escolarizados, alguns de nós até bem pagos. Vamos especular em termos de evolução a partir dos erros e abandonar por dois segundos o discurso dos vencidos. Como a feitura e a execução das leis brasileiras poderiam ser mais claras à população, menos onerosas aos seus bolsos e mais democráticas?

Esse não é o foco das minhas derradeiras leituras, mas se tornou objeto de muito interesse a partir da agenda posta pelo início do julgamento da Ação Penal 470 – vulgo Mensalão. Diante de toda a repercussão midiática, as perguntas vão e voltam na minha cabeça: Por que não estamos discutindo nosso modelo de democracia? Por que, em vez de decorar quem cometeu peculato, quem cometeu corrupção ativa, e qual a diferença entre os dois, o jornalista-editor também não propõe um debate sobre a estrutura política do nosso pobre rico país?

Tudo isso digo no meio de um alívio em dizê-lo, porque tenho saudade da voz dada à imprensa, que nesse momento não tenho como estudante autodidata [e feliz, não nego]. Nossa classe profissional tem o poder de transformar em “suprafato” os acontecimentos da realidade. É diferente o acontecido do acontecido noticiado. O último, parece, aconteceu mais, aconteceu duas vezes. Nós escrevemos a história diretamente se o historiador não for dos mais atentos.

Então eu encerro esse meu desabafo com um pedido encarecido e apartidário. “O mais ousado e escandaloso esquema de corrupção e desvio de dinheiro público descoberto no Brasil”, disse a Procuradoria-Geral da República. Existe um abismo entre “o mais ousado e escandaloso esquema descoberto” e o “mais ousado e escandaloso esquema”. O ofício de mediar informação exige concisão, mas não quando o resumo distorce as informações.

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.