Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

BERINJELAS, MUXOXOS E CONSENSOS POSSÍVEIS


mi mujer desnuda - dalí

mi mujer desnuda – dalí

Gosto de pensar que minha avó tem uma cabeça do mundo, muito embora seja uma senhora católica, criada no interior do Ceará, cujas leituras se resumem às eclesiásticas e a algumas edições da revista Seleção – a queridinha das vovós.

Gosto de pensar que, se eu souber explicar o meu mundo e o meu coração, ela encontrará no peito dela a sabedoria de compreendê-los, e nós ficaremos mais tranquilas com nossas diferenças de pensamento. Nossa relação cresce cada vez em que, agarrada a essa esperança, sento perto da cadeira de balanço dela, e compartilhamos algumas centenas de palavras nada banais.

Esta manhã de dezembro foi dessas. Conversamos sobre os papeis das mulheres no mundo, a possibilidade da igualdade de direitos entre homens e mulheres e outros tais. Aconteceu mais ou menos assim. É o resumo do resumo, a conversa durou a manhã inteira.

– Eu estou muito feliz com você, minha filha. E sei que você está feliz. Mas queria que você se valorizasse, tivesse mais autoestima.

De sábado para domingo, depois de uma farra homérica, dormi na casa do Yuri. Como decidi passar essa temporada de férias em Fortaleza na casa dela, ela foi avisada disso.

– Vovó, e a senhora acha que eu não me amo?

– Eu acho que a mulher que sai, passa a noite fora e dorme na casa do namorado não se preserva.

Eu sorri. Ela estava zangada.

– Eu sou um ramo da sua árvore, vovó. É só nos ouvir falar pra saber que somos parentes. O jeito do humor é parecido, a maneira de altear a voz no meio de uma história, o vocabulário. Mas nós também somos muito diferentes. Que triste pra mim, com a cabeça que eu tenho, simplesmente repetir a sua vida, não criar meu próprio caminho, não ter a coragem de defender as minhas convicções e de inaugurar minhas próprias tradições. Eu seria triste.

Aqui a conversa já não era apenas sobre dormir fora, era também sobre minhas convicções sociais e sobre os trabalhos com os quais me sinto confortável e dos quais ela tem medo, porque me acha muito – palavra dela – subversiva. Imagina se eu fosse uma militante puro-sangue.

– Acontece, minha filha, que você tem a ilusão de que pode inventar uma tradição, quando a tradição está aí pra todo mundo.

– Vovó, a senhora não acredita nisso. A senhora saiu da casa dos seus pais, com todo conforto, pra vir estudar em Fortaleza adolescente. A senhora casou com um homem pobre, contra a vontade do seu pai. Teve um tempo em que a senhora passava o dia fora no trabalho, enquanto o vovô ficava com as crianças, porque trabalhava perto de casa. A senhora não acredita no que acabou de dizer.

Ela ficou em silêncio um pedaço.

– Mas eu nunca me desvalorizei. Honrei o sacramento do casamento mesmo depois de Chico Mano morto, porque não queria dar dois golpes nos meus filhos. O de perderem o pai e o de verem a mãe com outro homem.

– Vovó, a senhora acha que na sua cabeça cabe o mundo todinho?

– Claro que não!

Zangada de novo, ela encostou as costas na cadeira de balanço e fez um muxoxo. A cadeira ficou para frente e pra trás, e ela ficou com um bico enorme.

– A senhora é muito sábia, é uma mulher muito forte. Mas a senhora só pode usar a sua experiência para me dar exemplos de possibilidades de vida, não para dizer que as minhas ideias estão erradas, ou que eu não posso fazer o que eu acho que posso e devo fazer. A senhora sabe que não tem o direito de fazer isso.

E aqui digo isso pra mim mesma também. Quem me conhece sabe que eu posso ser bastante doutrinária vez por outra.

– Mas eu não faço isso. Você faz o que quer. Sempre fez.

– Seu irmão mais novo costuma dizer a mesma coisa sobre a Estela adolescente e jovem.

– Hm…

– E eu faço o que quero, mas seu coração fica intranquilo. Porque aí dentro a senhora não aceita que eu seja diferente da senhora. Porque me ama e tem medo de que eu me machuque. Eu gostaria que a senhora me desse esse voto de confiança: eu me perco de vez em quando, choro e me meto em encrenca – mas aprendo rápido e me amo muito.

Silêncio.

– E também não vou deixar de ser salva por isso. Os padres sabem de muitas coisas, mas sobre mulher, normalmente, eles tão enganados.

– Eu sou uma criatura revoltada com a maneira como a mulher era tratada no meu tempo, não pense que eu não entendo quando você diz que algumas regras da sociedade são erradas e fazem mal às mulheres. Porque eu nunca baixei minha cabeça pra homem nenhum, nem pro seu avô.

– Eu imagino que não tenha baixado mesmo.

– Mas, quando você dá o que você tem de mais precioso pra ele, você está confiando demais nele…

– Vovó, no dia em que a minha periquita for o que eu tenho de mais precioso pode me enterrar que eu virei um bicho irracional e besta.

Ela riu alto.

– Janaína, tem coisas que você fala que eu não tenho resposta.

Pronto, chegamos ao consenso possível.

– Tudo bem, Maria. A gente não precisa ter resposta pra tudo.

Peguei a acetona e uns chumaços de algodão. Começamos a tirar os esmaltes escalpelados das próprias unhas – o meu azul, o dela vermelho. Daí a conversa foi bater nas diversas maneiras de se preparar pratos com berinjela e em como a família ficaria empanzinada com os oito quilos de chester comprados pelo meu padrinho para a véspera do Natal.

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À JOAQUINA, DESCONSELHOS


[é bem verdade no mundo existirem tantas qualidades de mulheres quantas mulheres existam. mas isto aqui é sobre Periquitas e Joaquinas]

menininha naturista na lagoa do Peri - Floripa, 2012

menininha naturista na lagoa do Peri – Floripa, 2012

Minhas salvas às vadias. São elas a terra fértil dos homens livres. O que a língua alheia empobrecida não alcança é a tamanha braçada no mar arredio que é pôr-se do lado de fora das fronteiras do estabelecido, onde o gozo é uma bomba atômica asmática e sem sobreviventes. Não o alívio temporário de uma obsessão pelo homem a quem perseguimos.

Joaquina, você aprendeu o amor como fosse uma febre terçã, e dessa doença morre de olhos abertos. Não alimente ilusões: à mulher cabe debater-se contra os próprios muros um tanto mais do que ao homem. A ela destinaram gaiolas com grades laminadas e essenciais à manutenção da moral e da sociedade como as conhecemos. Ornadas e fatais. Se, enquanto delas nos livramos, além de roxos e rasgos, ainda outras nos reservam o falatório nas janelas… é embaraçoso. Pras linguarudas!

Estes seus dedos em riste na minha cara, Joaquina, hão de ser sua desgraça. Enquanto se ocupa da minha cama, suas pernasmãossexos braçosorelhaspescoços perdem-se na repetição de movimentos esvaziados de si. E você sufoca suas necessidades de fêmea para que a si não apontem dedos em riste. Então o faz comigo, porque está borrada de medo. Por que não sairá da gaiola, Joaquina? Pra quê alpiste se frutas do mato esperam as mordidas das bocas desavergonhadas? Sinta o sumo escapar pelo canto dos lábios, escute este sexo latejante e deixe os grilos se perderem na noite.

Eu digo: quebre seu punho antes de ocupar estes dedos a outras atenções que não as descobertas de seu próprio corpo. Se você passa e ladra, as Periquitas passarinham.  O tempo nos leva a todas em igual medida. E repito: olhe, nosso corpo é nosso. Não é ação na bolsa para se desvalorizar a cada alto e baixo – à espera angustiada do dono mais definitivo. Gozamos quando nos levamos ao gozo e perdemos o tino, não quando eles nos sacodem a coelhadas e, exaustas, fingimos uma síncope. Nós gozamos e transfiguramos. E sei lá nosso rosto como faz. E sei lá se nos desmanchamos desajeitadas e cheiramos à dobradura de pele. É preciso prática, cariño. Além de algum desprendimento. Deixa eu ser bem clara quanto à minha aposta: é preciso errar.

Joaquina, minha menina emburrada, minha para nada inimiga, com tanto mundo lá fora por devorar ainda… Tire este dedo estirado da frente do meu nariz e vá brincar na areia. Faz sol.

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ASSIM


Escalamos até os últimos andares dos edifícios

e de lá os gritos esvaziam o burburinho da rua.

Nuas, a cidade nos espreita as constelações cruas de frio e susto.

A vida não é nada além desse corpo que responde ao vento e se lança.

Quando abriam as portas dos nossos quartos,

lá estávamos no meio do ato – Tieta, Carmem, Gal.

E, mesmo diante do pavor e do flagra,

chegou o dia em que não sabíamos mais

a fina distinção entre outras e nós.

Quando tentamos o nexo e todos os raciocínios

deságuam na emoção suada de espraiar-se mulher.

O salto nos põe no ar.

E nos estica a perna.

Assume o impulso.

Pede do corpo acompanhar

o movimento primeiro.

Sem músculos, nem força.

Olhos fechados,

mundo lá fora

e aqui dentro: dança.

Uncovered, de Jordan Matter - NYC.

Uncovered, de Jordan Matter – NYC.

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À CIDADE ONDE NASCI


Fortaleza,

A cidade onde nasci age sobre mim, desgoverna a razão das minhas forças.

Eu a respiro com inspirações longas e curtas expirações – ares de Fortaleza jamais me abandonam os pulmões. Encontrá-la após cada braçada no mar de mundo renova oxigênio de dentro, troca matéria mofada por frescor. E, no entanto, feito a cirurgia que é, arrepia-me a espinha de paciente, faz-me tremer a voz de filha.

Não pude descer do avião tão logo pousei em Pinto Martins. As portas da aeronave se abriram, estive sentada, o olhar fixo sobre as luzes de sinalização. Não foi aflição simples, deu-me uma espécie genuína de pânico. Quis estar em ônibus de rota circular e esperar a meia-volta. A emoção teimosa saltava-me pela boca seca, os pensamentos desalinhados não alcançavam a compreensão de tanto disparato.

A família reunida à espera no próprio aeroporto, os abraços dos amigos tão firmes nas saudades, todos os lugares cujas imagens difusas perseguiram cada final de semana na cidade maravilhosa – mas mãe dos outros. Como, medo? O juízo deu voltas, mas não pôde explicar-se tão já.

Meu corpo sabia e o sabe: Fortaleza, meu quintal, meu castelo de areia, minha guerreira índia, você me apavora. O magnetismo dos caminhos já traçados sobre suas ruas, Fortaleza, desgosta-me. Tanta água passada mina o meu mapa de si, sobra-me pouco espaço para criação. A distância espaço-temporal proporcionada pelo novo projeto – de retomadas e alguma madureza – é-me terapêutica. A mão trêmula que se agarrou à mala na tentativa de encontrar aprumo antes de deixar o saguão das bagagens sabia disso, foi sintomática.

Fortaleza é meu quintal apenas porque não a deixo ser-me matadouro. Assim, a dicotomia dos sentimentos embaralha, por vezes, meu raciocínio – mas jamais engana a flor da minha pele. Pouso em você, Fortaleza, e meu corpo apavorado e amoroso percebe que eu estava com saudades minhas.

Somos duas e distintas,mas admito: embora a distância seja necessária, pisar-lhe a duna reafirma todo propósito da sedefome de marmundo. Olho o espelho e, afinal, está lá: aquela, a outra, esta mesma. Saída de escombros alheios e tão familiares. Forjada leve de uns punhados generosos de gravidade e peso. Quem olha atrás de si e canta o contentamento de hoje. Tão no início do voo ainda, com ideias de asas gigantes. A costura do impossível, no encalço de fazer todos os sentidos e de se deixar por eles ser refeita – outra e outra vez.

Fortaleza, minha casa, meu erro, meus ais, eu a amo. Mesmo em silêncio, mesmo à distância. E, quando meu corpo treme por pavor a você, é quando mais sei o quanto a tenho e quero.

Sua,
Janaína.

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A PASSAGEM DO TEMPO ANDARILHA


Continuo com a vista perdida no horizonte,
As caminhadas tagarelas, os fones altíssimos,
As saudades do futuro, as questões de várias respostas
E os sentimentos mutantes.
 
Continuo e os contos e as comidinhas leves
E os filmes estranhos e os amigos viajantes
E o pulso apaixonado de mundo.
 
Continuo. O poço de emoções ferventes. A labareda.
Crio raízes aéreas? Descubro de mim? Traço rotas?
Faço silêncio. Olho o sol. Convivo. Está tudo, e queima.

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FAKE IT TILL YOU MAKE IT


Mas nós, os fingidores, I’m afraid,
Entregamos todo o ouro ao bandido
Na essência mesma dos detalhes.

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SONHOS, SONHOS SÃO


[meu subconsciente sabe como me acertar o medo em cheio, esse puto]

mi mujer desnuda – dalí

 

Estava sentada no chão da sala. Não tinha montado a mobília, não era a dona da casa, mas a conhecia de tempo e tinha me adaptado à condição de visita. Um casal de crianças brincava na minha frente com roupas de cores elementares e cortes retos. Eu apontava a câmera fotográfica na direção delas.

Através da lente, a imagem dos meninos era granulada, e me dava prazer essa versão antiga do tempo presente. Tirei um pouco do zoom. Um casal de amigos, pais das crianças, sorria. Ela de trança longa, sentada no sofá, olhava o companheiro, que estava de pé, inclinado sobre ela.

Eu sorri também. E fiz a fotografia: a brincadeira das crianças ao lado do companheirismo dos pais. Depois vi a imagem revelada: minha figura contemplativa, por detrás da máquina, sobreposta feito marca d’água à cena.

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.