Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

NA CASA DOS DESEJOS SEM NOME


sobre o que não queremos falar?

quando o assunto mais essencial
ao pleno desejo de cada um
é impronunciável?

e por quê?

o medo
quando não dito
em que se
transforma?

e a paixão,
quem a conhece
que a sinta apenas
delícia e não também
crua e incisiva
como um abismo?

como a maior
intimidade possível
com o que se esconde
de si?

quem deseja tem feiura,
incongruências, decompassos.
em carne-viva.

quando se alimenta a paixão,
por cima do medo e da dúvida,
por cima do estar envergonhada
com o reflexo da própria vontade,
ela deixa de ser paixão?
ou ela encontra uma versão
mais velha de si mesma?

a vida precisa ser uma sequência
de espasmos-resposta ao outro?
ao que o outro provoca em mim?
e se meus olhos brilham de vida,
a minha, no sentido que a ela atribuo,
compartilhada com outros apaixonados,
ridículos, inquietos, perguntadores,
então não estou apaixonada também?

e se o outro se modifica todos os dias
e o desencanto é parte de permanecer encantada?
e se dentro de estar apaixonada também cabe
a minha voz de mulher do mundo?
a minha fuga e a minha casa.
estou aqui. não é um pedaço. é tudo.
e se movimenta.

na cidade caminhos se traçam sobre outros caminhos
e nos tropeços das ruas vão-se ficando as primeiras vontades
as ingênuas, as inconfessáveis, as mais abstratas

deitam-se, nas rachaduras, os elementos primeiros

com que se jardinam as paixões, o estar em constante estado de graça
como o que se quer e com o que se procura

o que de mais bruto nos incomoda e necessariamente também nos define

na mesa de bar da esquina, sempre tem quem fale mal da Dilma
ou do vizinho, do trambiqueiro do trabalho, da Gisele Bundchen

sempre tem quem esteja repetidamente aficcionado
pela casa do sem jeito, pelo arrebatamento,
pelo que um dia lhe cairá no colo. ou por quem foi embora cedo demais.

você não está sempre falando de você, da sua tara,
mesmo que a conversa seja sobre o Corinthians?

eu sento à mesa sobre a calçada
peço o caldo de ervilha requentado
e a cidade se me passa pelos olhos
como uma caravana de mascarados

a mim me interessa a crueza.
o relaxamento de quem interage,
sem subterfúgios nem pesos,
com os próprios medo e desejo,
e com o medo e o desejo do outro

na rua, por sobre onde paira o tempo,
a cacofonia cotidiana das pessoas
quer aparentar a leveza que a
própria Babel estilhaça

perdem-se bondes diários de sutileza
e atribui-se à essência das coisas
a característica de um despropósito,
por não a suportar encarar

falemos de outra coisa, sim?

mas sobre o que você tanto fala,
que eu não consigo entender?
e sobre o que tanto falo eu,
que de tantas perguntas
não chego à certeza de nada?

estou calma,
o mundo é o caos,
toda ordem é criação.
estou calma,
não preciso negar os labirintos
para me conhecer e seguir.
estou calma,
as respostas estão aqui dentro
não no barulho das ruas.

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FANTASIADO DE FOLIÃO, SEU CORAÇÃO DEU SALTOS NA GUANABARA


A banda plantava marchinhas nas memórias alteradas da gente. A cidade tomada pela sensação atemporal dos feriados festivos fazia graça dos moradores, transvestida noutro tempo, doutra cidade qualquer. E não era só a música, ou nada assim apenas – senão também um calor sem véspera, uma folia desfeita de começos, perdida das beiras, clandestina.

Ela fazia silêncio com a dança, cansava o peito com as letras das canções – o peito vazio. O cordão rompia a avenida, desconhecido dela, ela desconhecida dele. Defendida pela multidão da necessidade de se explicar, de fazer companhia, de ser quem se pensa ser. Dançava.  Os olhos sem apelos passavam por perdidos. Não procuravam nada.

Estava sozinha por gosto, quase por força, mas por gosto – no misto das sensações obrigatórias/voluntárias, quando não existe outra escolha senão seguir a própria vontade sem meios termos. Mas, se só, não estava inteira, sabia disso. Faltavam umas penas, alguma cor de fruta. Faltava, no intransitivo, no inexplicável. Tanto queria a independência, conseguiria quando dependesse – quando se permitisse. Era assim.

Mas ali não desejava a lembrança desses fatos. Ali ainda era tarde, e de nada lhe adiantaria o esforço do contrário. Ali estavam as serpentinas, suspensas. Depois – seria possível não falarmos disso tão já?– voltaria ao inevitável. Junto dos garis varreria a sujeira das ruas, procuraria os objetos pisoteados, mas de ainda algum valor, encararia as perdas e as tarefas imediatas. Na quarta. Ou na segunda da semana seguinte.

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DESCALÇA


foto de Davi Aragão – Pacoti-CE

Senta na ponta da cama e olha pela janela. O cheiro do quarto é todo dela – aquele quarto que não lhe pertence. Ele acorda atordoado. Os olhos apertados evitam a luz nascente. Vira-se de costas e põe o lençol sobre os olhos. Pede a ela que feche as venezianas, sem fala. Ela atende ao pedido. Sempre. Depois procura os sapatos.

De quantas torções se refaz uma pessoa? Quantos sustos mais há de sofrer até se olhar o reflexo e compreender, enfim, de que lhe vale todo esse estranhamento. Com toda força, a solidão se insinua na saudade. Vontade de céu aberto e cores vivas. Ela sabe bem, tudo é voluntário, incluso o espasmo de resistência. Tudo encaminha a cena dirigida por ela, por ele, pela equação. Onde está o relógio?

O que deixará de amar? O que amará mais? É certo: depois de todos os acertos de arestas, os sentimentos dançarão sobre as cadeiras e tomarão assento em lugares inusitados da sala. É certo. E lhe dá frieza no estômago pensá-lo. Enquanto ainda procuram o encaixe, está distraída. E quando acomodarem? Abana a cabeça e pisca os olhos um sem-par de vezes até se sentir um pouco tonta. Levanta e escova os dentes.

Suspira descontentamento. Sente a sensação de falta inexplicável que sempre resulta de se esmigalhar pelo caminho – soltando cascas, antigas esperanças e vícios. E como saber a hora de parar? Como entender que  deve dar menos, afinal? Compreender o limite jamais testado. Não tem a menor ideia.

Banha o pescoço de perfume e vai ao trabalho.

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MAIS UMA GARRAFA AO MAR – E A ELE APENAS


Ao acaso, o encontro e os passos de dança deslumbrados. Feitas as oferendas ao tempo, esperou-se mais boca, mais pele, mais qualquer construção breve de eternidades. Mas o amor é gás, esvoaça na mesma freqüência em que inebria. Nunca se pôde agarrar nas mãos e nem por isso foi menos bem-vindo.

Ensaios de abraços, as incertezas são arrecifes na entrada do mar. Está confuso, mas são pobres os pretos nos brancos – e tão mais seguros, menino. Previsíveis e tediosos. Pode um porto estar duvidoso e ao léo? Pode ele ser apesar da dúvida e por causa dela? Existe algo que esteja vivo e, ao mesmo tempo, certo?

Não se tratam de verdades de meio minuto sustentando indiferença. Este sorriso não é indiferente. Minha leveza é dúvida, porque não sei nada. Nego o peso, porque sou pequena demais para certezas. Mas só quando a confusão livrar a cabeça dos desencontros estarei perdida. Até lá, sou profusão.

Uma certeza pesa muito mais que um aguaceiro de perguntas. Sofre a areia pelo volume de água do mar? Não poderia… o que seria da areia sem o sal a pesar-lhe em cima? Não pesa um corpo amante após o gozo.

Quando bati com a cara na janela fechada, ganhei uma nova cicatriz. Está aqui e independe do meu julgamento sobre os laços e o corte. As dores são autônomas, existem antes da culpa, do ciúme, da avareza de não se dar. Estão aqui independentes da interpretação dos homens. Existem em demasia. Já se sabia de antemão dos perigos. Mesmo que, a fundo, nunca se saiba de vera.

E os sacrifícios cristãos, o autoflagelo, o açoite… Esse mea culpa renitente. “Perdão, perdão…” Prepotências tão banais. Acorde. Dói mais em você. Porque você quer, quis. Por quê? Saio com os amigos da minha lealdade, saro com  eles, vejo o que vale à pena. Nosso quintal é a cidade inteira. Corremos à beira-mar, dançamos juntos, e mais um dia amanhece. Eu sou ainda e mais.

O que me vale é velejar. Se a vela rasga, não faltam motivos para desafogar-se.

Pela poesia que não vivemos, um brinde ao coração machucado sem ter a quem culpar. Uma salva de palmas, platéia, a quem se banhou no mar mesmo já conhecendo a ressaca da maré. E deixou-se levar boiando em forma de estrela, braços e pernas estendidos para o sol.

Vivas a quem soube sorrir com a boca despedaçada, a quem foi os destroços mais contentes, a quem viu aflorarem os calos e olhou sereno. A firmeza irrevogável da delicadeza, a sensação de não pertencimento à hora triste, a ciência de quem fez o que lhe coube e foi inteira em cada pedaço.

Olhar bem e ver beleza na ferida, atestar mais essa prova do tempo. Longe do desespero e de suas construções artificiais, porque o amor é bruto. A regra não. Fugir da histeria rouca, ver por cima dos ombros do meu bem mais uma onda quebrar na praia, o sol tinir. O dia é meu sorriso de mulher.

Carinho, beleza e banho de sol. Nada mais vale um pensamento sequer. O sal da boca, a cor da terra, os olhos baixos do bem-querer… Levo as imagens da manhã e caminho de mim. Deixo o vento lavar as palavras que eu só disse na intimidade da solidão, e aquela única vez apenas. Conversas do mesmo cansaço dizem respeito a um segundo e não merecem mais.

A brisa passa por mim, as palavras passam com ela. Minha casa é o mar, cuspimos fora o que não nos serve de nada, fazemos convites irrecusáveis ao que nos interessa. O vento deixa os cabelos bagunçados e refaz os cachos da criança . Há de sempre pesar mais essa imensidão de água a nos abençoar a vista.

As cicatrizes não carecem da dor para permanecerem. A pele lembrará sem o reforço de martirizar-se. Deixe estar o vento, fará voar a areia, limpará o solo, fertilizará outra vez a terra agora seca, cuidará que siga farta e crente – broto de fé. Nego o desengano, escolho a ingenuidade.

Quero a onda, o sal, o tombo. O caldo rasgando as narinas, invadindo os ouvidos, zunindo a cabeça e enrolando os cabelos. Outra e outra vez, sentir. Pela prosa da fruta madura, narrativa de palavras recheadas de significância. Rompante. Beleza. Suor. P.e.l.e. S.o.b.r.e. P.e.l.e.

Cuidado tenham os aflitos. Aos afoitos, ressaca.

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.