Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

LEIO O NOTICIÁRIO


e me acontece mais ou menos assim

Nós vivemos em um mundo em que os países precisam de reservas monumentais de dinheiro para fazer frente às crises econômicas internacionais geradas pelo excesso de liquidez.

Nós vivemos em um país com U$ 380 bilhões em caixa e com a certeza logística de que isso é bom para todos, porque diminui a vulnerabilidade da nossa economia aos choques externos.

Agora eu não questiono isso. Eu sei que se trata de uma evolução pela lógica da estabilidade brasileira frente ao mercado financeiro internacional.

E sei que essa montanha de dinheiro garante crescimento econômico que pode [pode] incrementar a qualidade de vida do brasileiro comum – seu acesso à escola e à saúde públicas, à moradia digna, etc.

Afora o fato de que esse destino nobre pode bem não ser o que há em mente das pessoas que assumem o controle da máquina; afora toda a estrutura social vertical a que dinheiro nenhum no mundo consegue mudar senão interesse político, mudança social, trabalho e cultura; ainda há um outro pesar. Pra mim.

O meu outro pesar é que, nós – pessoas, gente – sejamos uma sociedade de acumuladores. É que vivamos neste planeta imenso, cheio de vida e beleza. E haja tanta insistência em se construir dia após dia esse mundo humano paralelo acumulante, acumulável, cheio de dinheiro e de miséria.

*** saiu hoje no jornal: Brasil superou décadas de vulnerabilidade externa e cresce com menos desigualdade:  http://bit.ly/1qdniPA

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O DOM DA MEMÓRIA ABSOLUTA


Barco para Ásia – maio de 2009

“Mas eu conheço a solidão. Três anos de deserto me ensinaram bem seu gosto. O que me contrista não é a mocidade que se gasta numa paisagem mineral. É o pensamento de que, longe de nós, é o mundo que envelhece. As árvores formaram seus frutos, as terras deram seu trigo, as mulheres se fizeram belas. Mas a estação avança. Seria necessário voltar para lá depressa… Mas a estação avança – e estamos presos, à distância. E os bens da terra deslizam entre nossos dedos como a fina areia das dunas.”

Terra dos Homens, Saint-Exupéry

Não sabia nada de si até estar tão só.

Nem entendia do outro. Até o eco da primeira risada autônoma, primitiva, violenta… divertiu-se pela platéia.

Das experimentações de alteridades, quem fica é o ser. Essa eterna companhia de ares graves e meninos. Vinda de dentro. Para compreender-se, silencia. Para melhor análise do mundo, o espelho. Para amar, solidão. Depender-se. Até o dia em que chegue o outro e, sem tato, desfaça o equilíbrio bem nutrido dos dias ímpares.

Porque alheio, invade. Porque tão diferente, assusta – espalha os papéis pela sala, destoa das cores do quarto, troca os móveis de lugar. Faz pouco da escolha dos quadros – é sem querer. Seja bem vinda, tormenta. É sua a casa construída.

Para o outro é o vivo. Mas é vivo em si. E sem um eu que interesse a si mesmo e contente a si mesmo, não lhe valem os outros, não lhe podem bastar nunca.

Ao deserto, um brinde.

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.