Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

BOM DIA, SOLEDAD


Quem fica é o ser.
Eterna companhia
de ares graves
e meninos.

Vinda de dentro,
atravessa o outro
e é por ele atravessada.

Mas é sozinha
e livre e ama.
Até não ser mais.

[aonde o pensamento vai quando

se escuta Astor no café da manhã]

 

Anúncios

Filed under: dos meus plurais, , ,

LEIO O NOTICIÁRIO


e me acontece mais ou menos assim

Nós vivemos em um mundo em que os países precisam de reservas monumentais de dinheiro para fazer frente às crises econômicas internacionais geradas pelo excesso de liquidez.

Nós vivemos em um país com U$ 380 bilhões em caixa e com a certeza logística de que isso é bom para todos, porque diminui a vulnerabilidade da nossa economia aos choques externos.

Agora eu não questiono isso. Eu sei que se trata de uma evolução pela lógica da estabilidade brasileira frente ao mercado financeiro internacional.

E sei que essa montanha de dinheiro garante crescimento econômico que pode [pode] incrementar a qualidade de vida do brasileiro comum – seu acesso à escola e à saúde públicas, à moradia digna, etc.

Afora o fato de que esse destino nobre pode bem não ser o que há em mente das pessoas que assumem o controle da máquina; afora toda a estrutura social vertical a que dinheiro nenhum no mundo consegue mudar senão interesse político, mudança social, trabalho e cultura; ainda há um outro pesar. Pra mim.

O meu outro pesar é que, nós – pessoas, gente – sejamos uma sociedade de acumuladores. É que vivamos neste planeta imenso, cheio de vida e beleza. E haja tanta insistência em se construir dia após dia esse mundo humano paralelo acumulante, acumulável, cheio de dinheiro e de miséria.

*** saiu hoje no jornal: Brasil superou décadas de vulnerabilidade externa e cresce com menos desigualdade:  http://bit.ly/1qdniPA

Filed under: sobre o noticiário, , ,

BERINJELAS, MUXOXOS E CONSENSOS POSSÍVEIS


mi mujer desnuda - dalí

mi mujer desnuda – dalí

Gosto de pensar que minha avó tem uma cabeça do mundo, muito embora seja uma senhora católica, criada no interior do Ceará, cujas leituras se resumem às eclesiásticas e a algumas edições da revista Seleção – a queridinha das vovós.

Gosto de pensar que, se eu souber explicar o meu mundo e o meu coração, ela encontrará no peito dela a sabedoria de compreendê-los, e nós ficaremos mais tranquilas com nossas diferenças de pensamento. Nossa relação cresce cada vez em que, agarrada a essa esperança, sento perto da cadeira de balanço dela, e compartilhamos algumas centenas de palavras nada banais.

Esta manhã de dezembro foi dessas. Conversamos sobre os papeis das mulheres no mundo, a possibilidade da igualdade de direitos entre homens e mulheres e outros tais. Aconteceu mais ou menos assim. É o resumo do resumo, a conversa durou a manhã inteira.

– Eu estou muito feliz com você, minha filha. E sei que você está feliz. Mas queria que você se valorizasse, tivesse mais autoestima.

De sábado para domingo, depois de uma farra homérica, dormi na casa do Yuri. Como decidi passar essa temporada de férias em Fortaleza na casa dela, ela foi avisada disso.

– Vovó, e a senhora acha que eu não me amo?

– Eu acho que a mulher que sai, passa a noite fora e dorme na casa do namorado não se preserva.

Eu sorri. Ela estava zangada.

– Eu sou um ramo da sua árvore, vovó. É só nos ouvir falar pra saber que somos parentes. O jeito do humor é parecido, a maneira de altear a voz no meio de uma história, o vocabulário. Mas nós também somos muito diferentes. Que triste pra mim, com a cabeça que eu tenho, simplesmente repetir a sua vida, não criar meu próprio caminho, não ter a coragem de defender as minhas convicções e de inaugurar minhas próprias tradições. Eu seria triste.

Aqui a conversa já não era apenas sobre dormir fora, era também sobre minhas convicções sociais e sobre os trabalhos com os quais me sinto confortável e dos quais ela tem medo, porque me acha muito – palavra dela – subversiva. Imagina se eu fosse uma militante puro-sangue.

– Acontece, minha filha, que você tem a ilusão de que pode inventar uma tradição, quando a tradição está aí pra todo mundo.

– Vovó, a senhora não acredita nisso. A senhora saiu da casa dos seus pais, com todo conforto, pra vir estudar em Fortaleza adolescente. A senhora casou com um homem pobre, contra a vontade do seu pai. Teve um tempo em que a senhora passava o dia fora no trabalho, enquanto o vovô ficava com as crianças, porque trabalhava perto de casa. A senhora não acredita no que acabou de dizer.

Ela ficou em silêncio um pedaço.

– Mas eu nunca me desvalorizei. Honrei o sacramento do casamento mesmo depois de Chico Mano morto, porque não queria dar dois golpes nos meus filhos. O de perderem o pai e o de verem a mãe com outro homem.

– Vovó, a senhora acha que na sua cabeça cabe o mundo todinho?

– Claro que não!

Zangada de novo, ela encostou as costas na cadeira de balanço e fez um muxoxo. A cadeira ficou para frente e pra trás, e ela ficou com um bico enorme.

– A senhora é muito sábia, é uma mulher muito forte. Mas a senhora só pode usar a sua experiência para me dar exemplos de possibilidades de vida, não para dizer que as minhas ideias estão erradas, ou que eu não posso fazer o que eu acho que posso e devo fazer. A senhora sabe que não tem o direito de fazer isso.

E aqui digo isso pra mim mesma também. Quem me conhece sabe que eu posso ser bastante doutrinária vez por outra.

– Mas eu não faço isso. Você faz o que quer. Sempre fez.

– Seu irmão mais novo costuma dizer a mesma coisa sobre a Estela adolescente e jovem.

– Hm…

– E eu faço o que quero, mas seu coração fica intranquilo. Porque aí dentro a senhora não aceita que eu seja diferente da senhora. Porque me ama e tem medo de que eu me machuque. Eu gostaria que a senhora me desse esse voto de confiança: eu me perco de vez em quando, choro e me meto em encrenca – mas aprendo rápido e me amo muito.

Silêncio.

– E também não vou deixar de ser salva por isso. Os padres sabem de muitas coisas, mas sobre mulher, normalmente, eles tão enganados.

– Eu sou uma criatura revoltada com a maneira como a mulher era tratada no meu tempo, não pense que eu não entendo quando você diz que algumas regras da sociedade são erradas e fazem mal às mulheres. Porque eu nunca baixei minha cabeça pra homem nenhum, nem pro seu avô.

– Eu imagino que não tenha baixado mesmo.

– Mas, quando você dá o que você tem de mais precioso pra ele, você está confiando demais nele…

– Vovó, no dia em que a minha periquita for o que eu tenho de mais precioso pode me enterrar que eu virei um bicho irracional e besta.

Ela riu alto.

– Janaína, tem coisas que você fala que eu não tenho resposta.

Pronto, chegamos ao consenso possível.

– Tudo bem, Maria. A gente não precisa ter resposta pra tudo.

Peguei a acetona e uns chumaços de algodão. Começamos a tirar os esmaltes escalpelados das próprias unhas – o meu azul, o dela vermelho. Daí a conversa foi bater nas diversas maneiras de se preparar pratos com berinjela e em como a família ficaria empanzinada com os oito quilos de chester comprados pelo meu padrinho para a véspera do Natal.

Filed under: relações sociais, , ,

A PASSAGEM DO TEMPO ANDARILHA


Continuo com a vista perdida no horizonte,
As caminhadas tagarelas, os fones altíssimos,
As saudades do futuro, as questões de várias respostas
E os sentimentos mutantes.
 
Continuo e os contos e as comidinhas leves
E os filmes estranhos e os amigos viajantes
E o pulso apaixonado de mundo.
 
Continuo. O poço de emoções ferventes. A labareda.
Crio raízes aéreas? Descubro de mim? Traço rotas?
Faço silêncio. Olho o sol. Convivo. Está tudo, e queima.

Filed under: dos meus plurais,

SONHOS, SONHOS SÃO


[meu subconsciente sabe como me acertar o medo em cheio, esse puto]

mi mujer desnuda – dalí

 

Estava sentada no chão da sala. Não tinha montado a mobília, não era a dona da casa, mas a conhecia de tempo e tinha me adaptado à condição de visita. Um casal de crianças brincava na minha frente com roupas de cores elementares e cortes retos. Eu apontava a câmera fotográfica na direção delas.

Através da lente, a imagem dos meninos era granulada, e me dava prazer essa versão antiga do tempo presente. Tirei um pouco do zoom. Um casal de amigos, pais das crianças, sorria. Ela de trança longa, sentada no sofá, olhava o companheiro, que estava de pé, inclinado sobre ela.

Eu sorri também. E fiz a fotografia: a brincadeira das crianças ao lado do companheirismo dos pais. Depois vi a imagem revelada: minha figura contemplativa, por detrás da máquina, sobreposta feito marca d’água à cena.

Filed under: dos meus plurais, , ,

LAVANDERIA DOS FANTASMAS


Maturidade, de Camille Claudel

[a quem afogo sou eu]

Os trapos suados no baú
emporcalham todo o quarto,
vira e mexe.

“É o vento”,
subestimo o coração.
Mas ele estala.

“O cheiro”, faz lembrar
“é sinal doutras criaturas”
– tímidas e renitentes.

[por dentro]

Dou de ombros,
olho a paisagem branca,
fortaleço a birra.

Depois obedeço.

Um a um,
lavo, emborco, afogo
os trapos sujos
– e quebro as unhas.

[dói e faz sentido agudo a dor]

Digo ao coração:
Já está bom.
Meia dúzia por vez.
Todos juntos verteriam
água suja dentro do peito.

E o coração me
responde, as batidas
apaziguadas e vitoriosas:

O que seriam os dias
Senão reviravoltas?

[então respiro de novo]

Filed under: dos meus plurais, , ,

AUTORREINVENÇÕES


Mesa de Bar – Emiliano di Cavalcanti

Tentativas e erros. Quem atravessa pistas fora da faixa de pedestre precisa saber dos perigos da teimosia. É preciso cautela para o descasado – dupla atenção. Não cabe a quem trai a regra dos pares o deslize bobo de um segundo, pode que seja demais. E, no entanto, somos, os errantes, todos uns impetuosos. Agimos pela força dos sentimentos, contamos com os astros e com as certezas inexplicáveis. Avançamos cegos de fé, amolados.

Por isso, sei: é a hora da virada. Quando quem sou e fui e sempre, mas dormia, cobra o tempo passado na folga doutras querências. É agora, avisam as inevitabilidades. Então, talvez por ilusão, talvez por delicadeza, desacredito nas coincidências. Estou de pé, sobre o chão dessa terra nova. Desconhecida dos motivos, mas os há, e começam a aparecer a cada caminhada demorada pela praia – a cabeça descansada me devolve a mim.

O caminho pela frente irrompe minhas janelas feito agiota impaciente. Eu pago, sussurro ao inevitável da minha vontade, tenha calmaMas ele me agarra pelo braço e atropela meus passos, imprime novo ritmo a eles – como detesto quando me agarram pelo braço. Mas o sigo, o caminho pela frente, e percebo como estou diferente, como a afirmação birrenta, detesto, detesto, hoje ecoa mais serena aqui dentro. O preço de nos crescerem os ossos e as experiências de dor.

A passagem do tempo, gosto de pensar, me ajuda a enganar meus próprios vícios, a me antecipar a eles, acoitá-los na esquina de casa, liberá-los quando convier – deixá-los com fome sem desesperos. Estou calma. Estou calma. O meu mantra neste pervir. O mundo marcha pelas escolhas do indivíduo, é o que me diz o peito petulante e ingênuo. Se as minhas tendem ao improvável, sou feliz no sufoco da busca. Forjo-me. E a ninguém mais concedo essa premissa. Adiante.

Filed under: dos meus plurais, , , ,

apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.