Janaína Brás

Então o anjo disse-lhe: "Mulher, tua religião é selvagem, tua oração é o abismo."

CONSTÂNCIA LUDDITA


Era manhã de agosto

Já os anos passavam depressa

Quando Constância quebrou

A máquina dentro de si,

 

E o relógio do mundo permaneceu.

 

Outro dia veio. Depois mais um.

Sem estrondo nem abalo.

 

As novelas se repetiam no Leblon.

O trânsito enlouquecia toda gente.

Os malucos falavam sozinhos na rua.

Os neuróticos falavam sozinhos na rua.

A banca de flores da esquina seguia 24h.

 

Ninguém dava pela falta

Da máquina estraçalhada

Dentro do coração de Constância.

 

E não havia o que fazer

Com os pedaços

Senão entorna-los na pia

Ou no ralo do chuveiro.

 

Assim ela fez

A espera da reprimenda

Que nunca veio

 

Por fim, desapareceram

Os restos da maquinária

Numa terça-feira que

Bem poderia ser domingo,

Ou outra feira qualquer.

 

Nenhuma cerimônia.

 

E ela não entendia.

 

Vivera tantos agostos

Acovardada por aquele

Apêndice dentro do peito

 

Poderia jurar que

Morreria com ele

 

De pensar em quebrá-lo

Coisa que ainda jovem

Assombrava-lhe os sonhos

Sentia calafrios de terror

 

Quantas vezes

Apenas por cogitá-lo

Já se sabia imprudente

 

Olhava para os lados

Esperava a prisão sumária

A condenação à pena capital

E agora isto.

Este silêncio.

Toda normalidade.

 

Constância, livre

Da máquina afinal

Estava quase

A fazer meia volta

 

Foi quando deu por si

Sozinha no banheiro molhado

Plantada diante do espelho

 

Íntima do próprio reflexo

Viu uns olhos chispados

De recém-nascida

Pela primeira vez

 

Cuspida enfim para a face da terra

Era animal nova, criadora, criatura

E nem bem parida, já estava de pé.

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ASSIM


Escalamos até os últimos andares dos edifícios

e de lá os gritos esvaziam o burburinho da rua.

Nuas, a cidade nos espreita as constelações cruas de frio e susto.

A vida não é nada além desse corpo que responde ao vento e se lança.

Quando abriam as portas dos nossos quartos,

lá estávamos no meio do ato – Tieta, Carmem, Gal.

E, mesmo diante do pavor e do flagra,

chegou o dia em que não sabíamos mais

a fina distinção entre outras e nós.

Quando tentamos o nexo e todos os raciocínios

deságuam na emoção suada de espraiar-se mulher.

O salto nos põe no ar.

E nos estica a perna.

Assume o impulso.

Pede do corpo acompanhar

o movimento primeiro.

Sem músculos, nem força.

Olhos fechados,

mundo lá fora

e aqui dentro: dança.

Uncovered, de Jordan Matter - NYC.

Uncovered, de Jordan Matter – NYC.

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FAKE IT TILL YOU MAKE IT


Mas nós, os fingidores, I’m afraid,
Entregamos todo o ouro ao bandido
Na essência mesma dos detalhes.

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LAVANDERIA DOS FANTASMAS


Maturidade, de Camille Claudel

[a quem afogo sou eu]

Os trapos suados no baú
emporcalham todo o quarto,
vira e mexe.

“É o vento”,
subestimo o coração.
Mas ele estala.

“O cheiro”, faz lembrar
“é sinal doutras criaturas”
– tímidas e renitentes.

[por dentro]

Dou de ombros,
olho a paisagem branca,
fortaleço a birra.

Depois obedeço.

Um a um,
lavo, emborco, afogo
os trapos sujos
– e quebro as unhas.

[dói e faz sentido agudo a dor]

Digo ao coração:
Já está bom.
Meia dúzia por vez.
Todos juntos verteriam
água suja dentro do peito.

E o coração me
responde, as batidas
apaziguadas e vitoriosas:

O que seriam os dias
Senão reviravoltas?

[então respiro de novo]

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LEMBRANÇAS DA ADOLESCÊNCIA



“Não sou nada
Não quero ser nada
Não posso querer ser nada
A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Tabacaria, Álvaro de Campos

Pariu-se daí um primeiro passo nos caminhos da condição humana aos catorze anos. Apenas começava, pela própria natureza do que eu adivinhava naquela hora – que o ser é um processo transitório e mutável. Ocorreu-me que eu não fosse nada, dado o estado impermanente de tudo que eu representava.

Doente de contradições, inconformada pela imperfeição, incerta, volúvel. Fiquei enredada e aflita. Depois de eternas e tão breves tormentas, acho que serenei. E tive um lapso da consciência de que não posso ter consciência do que me define. Mas me mantive fechada. Observadora.

Não era nada, estava no mundo. Diante dos olhos, nada se assomava que não fosse só e jocosamente o Eu, transfigurado em um resto de Mim a que chamam de O Alheio/O Outro/O Próximo.

Enquanto os olhos piscam,
e a boca conversa e o corpo
trabalha ou frui, um mundo está,
mas é um reflexo.

Era difícil projetar essas inquietações em conversas informais.
O namorado franzia o cenho e mudava de assunto. Confuso.
Então [não só por isso, está certo] falava sozinha no meio da rua.
Lia no intervalo da escola, lia enquanto atravessava avenidas.

Riscava nas paredes
do quarto de dormir,
com tinta guache,
os versos prediletos.

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INVÉS


Fêmea indecorosa, invés.
Deflorada por presentes.
Soluçante de satisfação.
Pendo. Ótimo.

autorretrato aos 16, mesma idade em que, ainda virgem, escrevi a primeira versão do poema

autorretrato aos 16

Porque antes ele venha, arrase o pasto e parta, que um cão de guarda mate à cerca meu orgasmo e meu amante. E o porvir que se insinuava jamais atravesse os portões do castelo. Prefiro juntar os cacos a ser obra de arte casta.

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apresentações

Fico calada em eventos sociais e falo pelos cotovelos em varandas e cafés. Gosto de estar no meio da gente e perco tempo na vida dos outros, depois abro meus cadernos e escrevo. Penso na estrada 24 horas por dia. Sou de lá como quem está sempre a caminho.

Minha memória parece ter sido feita para ouvir e reter histórias. É como construo minha própria emoção diante do mundo, através do ouvido absoluto às vozes dos outros. A educação formal que persigo é consequência dessa multidão dentro de mim - as borboletas do meu estômago.

Portanto, por ora, sou graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Ceará e mestranda em Economia Política Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas venha com música, literatura e um sentimento de mundo aqui pra casa, e teremos assunto pra muitos anos.